Evan Vucci/AP
Evan Vucci/AP

Artigo: Doutrina isolacionista de Trump

As ações do presidente americano têm irritado e unido a Europa e podem pôr fim ao papel central dos EUA em uma possível nova ordem mundial

Fareed Zakaria / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2017 | 05h00

Agora temos uma Doutrina Trump. E ela significa, pelo menos em sua concepção, o mais radical afastamento da política externa bipartidária dos EUA desde 1945.

Em um artigo para o Wall Street Journal, o diretor do Conselho Econômico Nacional, Gary Cohn, e o conselheiro de Segurança Nacional, H.R. McMaster, explicam que Trump tem “uma visão clara de que o mundo não é uma ‘comunidade global’, mas sim uma arena em que nações, atores não governamentais e empresas interagem e competem por vantagens”.

Os autores complementam: “Em vez de negar essa natureza elementar dos assuntos internacionais, nós a assumimos”. E isso agora levou os EUA a se retirarem do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, assinado por 193 países.

 

O aspecto “elementar” das relações internacionais existe há milênios. A história da espécie humana é feita de competição e conflito. A política externa americana é um amplo reflexo dessa característica. Os EUA possuem o maior aparato militar e de inteligência do mundo, tropas e bases em dezenas de países e intervenções militares em andamento em vários continentes. Não é o retrato de um país que desconhece a competição política e militar.

Mas, em 1945, o mundo mudou. Após duas das mais sangrentas guerras da história, com mais de 60 milhões de mortos, os EUA tentaram construir um novo sistema internacional.

Constituíram-se instituições, regras e normas que incentivariam os países a resolverem suas diferenças de modo pacífico. Foi criado um sistema em que negócios e trocas comerciais expandiriam a economia mundial. E deu-se ênfase aos direitos humanos básicos, de modo a proibir políticas atrozes como as que levaram ao Holocausto.

Não funcionou perfeitamente. A União Soviética e seus aliados rejeitaram muitas dessas ideias desde o princípio. Mas Europa Ocidental, Canadá e EUA se tornaram, de fato, uma incrível zona de paz e cooperação econômica, política e militar. O “Ocidente” que emergiu é, em termos históricos, um milagre.

A Europa, que ao longo dos séculos havia se destruído em razão da competição internacional, agora competia somente para criar melhores empregos e mais crescimento econômico, não para anexar países e subjugar populações.

Essa zona de paz cresceu ao longo dos anos, primeiro incluindo países como Japão e Coreia do Sul, depois alguns países da América Latina. O bloco soviético continuou em competição e conflito. Então, em 1991, a União Soviética entrou em colapso, e grandes porções do mundo gravitaram rumo a essa ordem internacional aberta. 

No centro desse sistema estavam os EUA. O país já tinha tentado um projeto parecido depois da 1.ª Guerra, mas falhou. Franklin Roosevelt deu seguimento a um novo conjunto de regras nos momentos finais da 2.ª Guerra. Dessa vez, funcionou.

Trump, desde o início de sua carreira política, parece alheio a essa história e desinformado de tais feitos. Fala com admiração de homens de punho de ferro, mas critica líderes democráticos europeus.

As ações de Trump podem resultar em uma lenta erosão da ordem internacional liberal. E podem significar a ascensão de uma nova ordem não tão liberal, capitaneada por China e Índia, países mercantilistas e nacionalistas. Mas também podem resultar, no longo prazo, no fortalecimento dessa ordem, talvez pelo ressurgimento da Europa.

Trump unificou os países do continente de um jeito que nem Putin conseguiria. Pode ser que Trump não venha a provocar o fim do mundo ocidental, mas ele pode muito bem pôr fim ao papel central dos EUA nesse mundo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

É COLUNISTA

 

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