AFP PHOTO / EITAN ABRAMOVICH
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Artigo: Economia perde espaço do debate eleitoral

Corrupção, morte de ativista e antagonismo entre Macri e Cristina dominam a campanha legislativa para Senado e a Câmara

Carlos de Angelis* / Especial para o Estado , O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Durante os primeiros meses da campanha que termina na eleição de hoje, a principal controvérsia foi saber se a ex-presidente Cristina Kirchner concorreria ou não. 

Nas eleições primárias de 13 de agosto, o partido do presidente Mauricio Macri teve bom resultado em nível nacional. As prévias, originalmente criadas para que os partidos escolham seus candidatos, funcionam como ensaio da eleição “verdadeira”. Se alguém acreditava que, em uma eleição legislativa, seriam debatidas novas ou melhores leis, enganou-se. A principal discussão foi o kirchnerismo versus o macrismo.

As duas protagonistas da campanha foram a própria Cristina e a governadora da Província de Buenos Aires (que tem 38% dos eleitores do país), María Eugenia Vidal – esta, convertida na segunda política mais poderosa da Argentina, com melhor imagem que o mesmo presidente.

Em um segundo plano, estiveram o presidente Macri e a candidata pela cidade de Buenos Aires, Elisa Carrió. Curiosamente o principal adversário de Cristina, Esteban Bullrich, ministro de Macri, teve fraca participação. 

O governo apresentou uma campanha em múltiplos níveis. Defendeu a estratégia judicial de processar figuras importantes do governo anterior, por casos de corrupção, onde era difícil avaliar a diferença entre os requisitos da Justiça e as necessidades eleitorais do governo, que procuravam estabelecer que o kirchnerismo possuía características quase criminosas.

Em direção à parte mais baixa da escala social e nos círculos eleitorais mais pobres, o governo realizou um grande trabalho público e de ajuda clientelista. Esses territórios coincidem com os lugares onde Cristina teve o melhor resultado na prévias, especialmente na periferia de Buenos Aires. Já nos setores empresariais onde o governo tem um forte, mas interessado apoio, Macri deixou sinais prometendo reformas futuras.

Nos últimos dois anos, o governo contou com o apoio majoritário dos grandes meios de comunicação do país. Em resposta, Cristina buscou aumentar sua presença, dando entrevistas em programas de televisão, emissoras de rádio e portais da internet. Todas as vezes em que falou, atraiu a atenção da opinião pública, mas teve que dedicar grande parte do tempo para defender seu governo e pouco espaço para criticar o atual. Apesar disso, finalizou sua campanha “no velho estilo” com um ato celebrado no estádio de futebol do Racing em Avellaneda.

Lá, fez um curioso pedido aos seus seguidores, para que cada um consiga convencer duas pessoas a votar nela, uma vez que a maioria das pesquisas preveem a vitória de Bullrich hoje na eleição para o Senado. Cristina também conseguirá uma vaga como senadora, o que lhe permitirá recuperar o foro privilegiado. Mas se tiver menos votos que o candidato macrista, suas pretensões de voltar à presidência em 2019 ficarão seriamente ameaçadas.

Durante a campanha, o governo tentou deixar em segundo plano a questão econômica, uma vez que os resultados não foram os esperados para esses dois anos, embora seja possível observar melhorias pontuais. O principal problema é que não conseguiu domar a alta inflação, que supera as expectativas para o ano, mesmo aplicando uma política de elevadas taxas de juros que achatou o consumo e os investimentos. 

Além disso, registra-se um déficit crescente na balança comercial e um importante crescimento do endividamento externo, principalmente voltado para sustentar o déficit fiscal, o que foi alvo de críticas de Cristina.

Portanto, a ênfase está sendo dada à economia pós-eleições. O governo decidiu pela liberação dos preços dos combustíveis, novos aumentos nas tarifas dos serviços públicos (gás e energia elétrica) com o objetivo de reduzir o déficit fiscal, uma reforma na carga fiscal e outra previdenciária. A grande incógnita que se abre é saber como vão mudar as leis trabalhistas, uma forte exigência que os empresários fazem ao governo, tomando como exemplo o caso do Brasil. 

As reformas trabalhistas na Argentina sempre enfrentaram uma forte resistência por parte dos sindicatos, e por esse motivo o governo agora escolheu como estratégia realizar modificações focadas nos convênios coletivos, regras que regem a atividade trabalhista em determinados setores produtivos, mudanças que têm sido acompanhadas pelos sindicalistas.

Ao mesmo tempo, o desaparecimento do jovem Santiago Maldonado no sul do país, há três meses, supostamente nas mãos de forças de segurança e o aparecimento de um corpo que é o dele, a menos de dois dias das eleições, tornou tenso o clima político, causando dúvidas sobre seu possível efeito sobre a votação de hoje. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É PROFESSOR DE SOCIOLOGIA DA OPINIÃO PÚBLICA DA UNIVERSIDADE DE BUENOS AIRES

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