Alastair Grant/AP Photo
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Artigo: Eleição britânica exige voto existencial e cooperação inédita

A vitória de uma maioria contra o Brexit na convocação de uma nova eleição vai exigir mobilização, disciplina e tirocínio por parte dos eleitores para identificar qual candidato apoiar em cada distrito

Timothy Garton Ash*, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 06h00

A Grã-Bretanha está se aproximando de um confronto democrático. A saga do Brexit pode se revelar o pior populismo nacionalista do mundo ou pode levar ao melhor exemplo de uma reação democrática. Tirar proveito da crise vai exigir uma excepcional vontade dos eleitores britânicos de serem fiéis a si mesmos. No passado, falava-se em voto tático; agora, é voto existencial. 

A afirmação de que o populismo britânico esteja entre os piores pode ser vista como mais um exemplo da arrogância britânica em superestimar a própria importância. Seria pior que a demolição da democracia na Hungria? Pior do que o que Donald Trump possa fazer?

No entanto, nenhum outro populismo parece desmantelar tão arrasadoramente o próprio país que diz estar salvando. O fim do Reino Unido é uma provável consequência do Brexit linha dura para o qual o primeiro-ministro, Boris Johnson, como um enlouquecido piloto de corrida, está levando o país. O Brexit pode também enfraquecer tanto a União Europeia quanto a aliança atlântica.

Na verdade, pelos padrões da Hungria, o populismo britânico nem parece tão mau; mas, para a mais antiga e estável democracia parlamentar do mundo, é chocante. O Partido Conservador, um bastião da centro-direita há um século, transformou-se no Partido Conservador Revolucionário. Na semana passada, foram expurgados 21 membros do Parlamento, incluindo um neto de Churchill e dois ex-chanceleres do Tesouro, todos com muito mais credenciais conservadoras do que Johnson.

Os conservadores revolucionários forçaram a mais longa interrupção do Parlamento desde 1930, mentindo sobre seus propósitos. “O povo não perdoará jamais os conspiradores se eles não recuarem”, esbravejou o líder dos conservadores na Câmara dos Comuns, Jacob Rees-Mogg – ignorando o fato de que a última vez que o povo se manifestou pelo voto foi na eleição de 2017, que levou precisamente a esse Parlamento de “conspiradores”.

Mas é aqui que começam as boas notícias. Espectadores de TV de todo o mundo têm rido da Câmara dos Comuns, com seu ritual antiquado. Na verdade, o Parlamento de Westminster é motivo de orgulho para os britânicos. Nos últimos dois anos, seus assentos de couro verde testemunharam grandes discursos, com homens e mulheres pondo os interesses nacionais à frente de vantagens partidárias.

Agora, o Parlamento deu um basta aos populistas, votando uma lei que obriga o governo a pedir uma extensão do artigo 50 se não se chegar a nenhum acordo com a União Europeia até 19 de outubro. Caso Johnson se recuse a cumprir a lei, o que ameaça fazer, ele pode até mesmo acabar na prisão.

Como será o confronto? Tony Blair diz que deveríamos ir para um segundo referendo, mas não há número no Parlamento para votar a legislação necessária. Também é possível que Johnson abandone suas pretensões e caminhe para uma versão modificada do acordo negociado pela antecessora, Theresa May, o que poderia ser acertado na cúpula da UE de 17-18 de outubro. Se isso não ocorrer, o próximo passo seria eleição geral.

Uma vez que não confiam em Johnson, os partidos de oposição concordaram em esperar até que a extensão do artigo 50 esteja assegurada antes de aprovar essa eleição, o que nos levaria a uma eleição por outras vias. Por outro lado, por mais que sua paciência tenha sido posta à prova, a UE deveria ter o bom senso de garantir uma prorrogação de ao menos dois meses, na convicção de que o Parlamento da Grã-Bretanha terá convocado eleição no prazo. A alternativa, um Brexit sem acordo, é muito pior para os dois lados do Canal.

Nessa eleição, mesmo se o deadline de Johnson (31 de outubro) passar, a vantagem estará com os brexiters linha dura. Eles têm um objetivo – tirar a Grã-Bretanha da UE – e seus votos serão divididos entre o Partido Conservador Revolucionário e o Partido do Brexit. Poderão fazer um pacto. 

O outro lado não tem um objetivo único e claro. Muitos, incluindo eu mesmo, desejam um segundo referendo, mas outros se contentariam com um Brexit mais suave. E nossos votos seriam pulverizados entre sete grupos: trabalhistas, liberais democratas, Partido Nacional Escocês, Plaid Cymru, do País de Gales, o grupo Independente e, agora, numerosos parlamentares que em parte se agrupariam como Conservadores Independentes. 

Consequentemente, vencer essa eleição vai exigir uma cooperação sem precedentes. Trabalhistas e liberais democratas deveriam concordar em recuar em distritos em que o outro tenha um candidato pró-referendo mais bem colocado.

A vitória vai também exigir mobilização, disciplina e tirocínio por parte dos eleitores para identificar qual candidato apoiar em cada distrito. Isso é o que chamo de voto existencial. A campanha People’s Vote promete apenas orientação.

A mídia social e os jovens são cruciais. Funcionários de Downing Street, 10, disseram que uma razão pela qual eles querem uma eleição antecipada é esvaziar o possível registro de jovens, o que abalaria o resultado em suas cidades universitárias. Espero que isso já indique aos estudantes o que devem fazer.

Ao analisar uma recente pesquisa, o cientista político Matthew Goodwin mostrou quão decisivo esse voto existencial pode ser. Se os tories (do Partido Conservador) arrebanharem mais da metade dos atuais apoiadores do Brexit, conquistarão uma maioria completa de assentos. Se, contudo, os trabalhistas e os liberais democratas forjarem um bem-sucedido pacto, levando com eles os partidos pró-Brexit, o resultado será uma maioria pró-referendo no Parlamento. 

Mesmo que os partidos oposicionistas e independentes consigam maioria, eles ainda precisarão continuar unidos para aprovar a lei para um segundo referendo. Mesmo que tenhamos um segundo referendo, ainda precisaremos vencer. Mesmo que vençamos, ainda teremos de mostrar àqueles que em 2016 votaram pelo Brexit, muitas vezes por motivos pouco relacionados à realidade da UE, que eles foram ouvidos.

Ainda resta uma chance – talvez a última – de uma das mais veneráveis democracias do mundo ajudar a reverter a maré global contra o populismo nacionalista. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*TIMOTHY GARTON ASH É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD

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