AFP PHOTO / ANDREW CABALLERO-REYNOLDS
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Artigo: Está ficando claro que Trump não disputará a reeleição

Os próprios membros do Partido Republicano relutam em dizer se apoiariam nova candidatura do magnata nas eleições de 2010

Joe Scarborough / The Washington Post *, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2018 | 03h00

Há quase três anos, quando Donald Trump desceu a escada rolante de ouro falso para anunciar uma improvável candidatura à presidência, os políticos republicanos ficaram confusos quanto ao futuro da estrela de reality shows da TV, como quando ele fez pela primeira vez sua jogada publicitária que fracassou completamente.

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É verdade que os líderes do Partido Republicano têm mantido silêncio enquanto Trump arrasa o Estado de Direito, ataca juízes federais e afirma que a imprensa livre é inimiga do povo. Estes políticos marionetes chegam até a colocar uma mordaça enquanto os americanos mais jovens estão presos a um futuro de dívidas devastadoras. 

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E envergonham a lembrança do primeiro presidente americano – que deu sua vida para pôr fim à escravidão – marchando ao lado de fanáticos inúteis que qualificam os hispânicos de estupradores, querem proibir a entrada de dezenas de milhões de muçulmanos no país e defenderam a supremacia branca depois do pavoroso incidente ocorrido em Charlottesville.

E esses mesmos políticos moralmente fracos ficam mudos quando questionados se apoiarão uma candidatura à reeleição do seu temido líder.

“Veja, estou concentrado no problema dos opioides”, balbuciou Lamar Alexander, do Tennessee, sugerindo que um senador americano não está mentalmente apto para combater uma epidemia de drogas e, ao mesmo tempo, saber se apoia um presidente que é do próprio partido. Alexander não é o único senador republicano a dar uma resposta distorcida a esta simples pergunta.

O líder da maioria republicana no Senado, John Cornyn, recusou-se a responder, explicando que ainda não pensou muito a respeito, pois as coisas podem mudar antes do início da campanha para 2020.

O presidente da Comissão de Assuntos Externos do Senado, Bob Corker, passou quatro dias tentando encontrar uma resposta a uma pergunta que qualificou de “parcial”, para finalmente dizer que não desejava “ser notícia”. 

E outros políticos republicanos também não se mostraram interessados em falar sobre a campanha de 2020, da mesma maneira que o próprio Trump não quer discutir as complicações do processo movido pela atriz pornô Stormy Daniels.

Mas, embora o presidente e sua equipe de advogados tenham razões para agir com cuidado nesse caso, os republicanos no Capitólio podem relaxar. Está claro que Trump não disputará a presidência em 2020.

Na semana passada, as conversas nos escritórios da Casa Branca, antecipando a próxima demissão de funcionários, mudaram de foco, tentando prever que membro da família Trump será o primeiro a ser preso. A investigação independente do conselheiro especial Robert Mueller sobre a Rússia pode ter inspirado uma desafiadora resposta da Ala Oeste, mas a operação de busca e apreensão na casa, escritório e quarto de hotel de Michael Cohen provocou tal temor e animosidade nos gabinetes da Casa Branca jamais vistos desde que o presidente Richard Nixon enfrentou os promotores públicos que investigaram o caso Watergate, em 1973.

Agora, mesmo os mais resolutos aliados de Trump vêm discretamente admitindo que a investigação que corre no tribunal de Nova York é uma ameaça existencial ao futuro dele, do ponto de vista político e legal. Em Washington e em todo os EUA os republicanos estão sentindo que o presidente é uma figura política desgastada, levando-os a evitar dar seu apoio futuro ou a contestar o presidente diretamente.

Isso nos leva a Nikki Haley, embaixadora americana nas Nações Unidas. A ex-governadora da Carolina do Sul anunciou há uma semana que os EUA estabeleceriam novas sanções contra a Rússia e o presidente Vladimir Putin. Sua declaração enfureceu Trump, apesar do fato inconveniente de que ela estava apenas seguindo a política adotada pela Casa Branca e as posições do Partido Republicano. O presidente contestou as afirmações da embaixadora e garantiu aos russos que anularia qualquer sanção futura contra eles. 

Outros membros da Casa Branca reduziram a importância das observações feitas pela embaixadora, afirmando que ela “se confundiu”. A resposta de Nikki Haley foi direta: “Com todo o respeito, eu não me confundi”.

Com essas palavras, ela declarou que, ao contrário de muitos outros membros do gabinete de Trump, não permitirá ser humilhada por um especulador político cujos 15 minutos esporádicos de fama terminarão bem antes de um novo presidente prestar juramento em 2021. 

Que belo espetáculo isso seria! / Tradução de Terezinha Martino

* É jornalista

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