Tamir Kalifa/The New York Times
Tamir Kalifa/The New York Times

Artigo: Fronteira será segura quando América Central também for

Ajuda financeira dos EUA a países centro-americanos foi reduzida em 20% no início do governo Trump, apesar de acordo bipartidário

Joe Biden, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2018 | 05h00

Quando o presidente Donald Trump assinou decreto pondo um fim à separação de crianças de suas famílias na fronteira, a crise na América Central não chegou ao fim. O momento exige um novo foco no caso do chamado Triângulo Norte da América Central – formado por El Salvador, Guatemala e Honduras, que juntos constituem a fonte avassaladora de imigrantes que atravessam a fronteira ao sul dos EUA.

Se não forem resolvidas as causas dessa imigração, qualquer solução concentrada apenas na proteção das fronteiras e na aplicação das leis de imigração será insuficiente.

Em 2014, o presidente Barack Obama pediu-me para encontrar uma resposta internacional para o fluxo enorme de imigrantes chegando aos EUA, que no final resultou na entrada de 68 mil crianças da América Central desacompanhadas.

Naquela ocasião, me reuni com líderes centro-americanos na Guatemala para traçarmos um plano para reduzir a imigração e também para deixar claro que a imigração ilegal era arriscada, perigosa e não havia nenhuma possibilidade de as pessoas conseguirem o status de imigrante legal ou obter cidadania nos EUA.

E logo ficou evidente que essa imigração da América Central não seria resolvida simplesmente com a aplicação de medidas mais duras na fronteira, muito menos a construção de um muro. Pelo contrário, precisamos atacar as causas da imigração: o crime, a violência, a corrupção e a falta de oportunidades. O custo de investir numa América Central segura e próspera era modesto comparado com o de permitir que a violência e a pobreza tomem conta da região.

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Após intensas negociações entre o governo Obama e os presidentes do Triângulo Norte, o Congresso liberou US$ 750 milhões em 2016 para financiar os esforços para mudanças profundas e duradouras na América Central.

Como os governos centro-americanos são considerados – e com boas razões – corruptos, ineptos e incapazes de oferecer serviços básicos a seus cidadãos, apoiei o Congresso quando este decidiu ligar esse pacote de ajuda a medidas concretas por parte dos governos regionais para expurgar sua polícia, aumentar a arrecadação de impostos, combater a corrupção e criar as oportunidades necessárias para convencer os futuros imigrantes a permanecer em seus países.

No final do governo Obama, começamos a ver resultados. A taxa de assassinatos em Honduras caiu em um terço desde seu pico em 2011. A Guatemala melhorou sua arrecadação fiscal e adotou medidas contra a corrupção, renovando uma comissão anticorrupção apoiada pelos EUA até 2019. El Salvador atacou de maneira agressiva as redes financeiras de organizações criminosas transnacionais.

Ao mesmo tempo, a cooperação no campo energético ampliou o acesso à energia elétrica em países como Honduras, onde 12% da população ainda vive sem eletricidade.

Trump assumiu o governo determinado a cortar a ajuda para a América Central, mas o conseguiu somente em parte diante da reação negativa de membros engajados do Congresso, de ambos os partidos. Mas a ajuda americana diminuiu quase 20%, de US$ 750 milhões em 2016 para US$ 615 milhões este ano.

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Depois de uma conferência promissora sobre segurança e prosperidade na América Central em junho de 2017, da qual participou o vice-presidente Mike Pence, os três presidentes do Triângulo Norte não se reuniram com algum membro da alta cúpula do governo dos EUA.

Felizmente ainda há tempo para estabelecermos uma política com base na que foi adotada na última grande crise imigratória em 2014 – uma política cujo enfoque tenha por modelo o Plano Colômbia. Quando o vice-presidente Mike Pence viajar esta semana para a Guatemala, deveria ter um mandato para retomar os intensos esforços diplomáticos e de ajuda que deram nascimento à Aliança para a Prosperidade.

Nós podemos intensificar a segurança nas fronteiras e tratar os imigrantes que chegam da América Central com dignidade e decência, não com crueldade e indiferença. Mas o enorme desejo deles de fugir de seus países e arriscar tudo para entrar nos EUA mostra que seus governos ainda falham com eles. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FOI VICE-PRESIDENTE DOS EUA DE 2009 A 2017

 

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