Diane Bondareff/AP Images for United Nations Foundation
Diane Bondareff/AP Images for United Nations Foundation

Artigo: Fui estuprada aos 16 anos e me calei

Apresentadora e produtora do programa de TV Top Chef, Padma Lakshmi afirma que há muito a perder se for estipulado um limite de tempo para confissões sobre violência sexual

Padma Lakshmi / The New York Times , O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2018 | 05h00

Quando tinha 16 anos, comecei a namorar um cara que conheci no Puente Hills Mall, subúrbio de Los Angeles. Eu trabalhava lá depois da aula, no balcão de acessórios da Robinsons-May. Ele, em uma loja de roupas masculinas de luxo. Chegava usando um terno cinza de seda e flertava comigo. Já estava na faculdade e eu o achava charmoso e bonito. Tinha 23 anos.

Sempre antes de sairmos, ele estacionava, entrava, se sentava no sofá e conversava com minha mãe. Nunca me levava para casa muito tarde durante a semana. Éramos íntimos até certo ponto, mas ele sabia que eu era virgem e não tinha certeza de quando estaria pronta para fazer sexo. No réveillon, meses depois do começo do namoro, ele me estuprou.

Esse incidente voltou a minha cabeça na semana passada, depois que duas mulheres se apresentaram para dar detalhes das acusações contra Brett Kavanaugh, juiz indicado à Suprema Corte. Christine Blasey Ford disse que ele subiu sobre ela e lhe cobriu a boca com a mão durante tentativa de estupro, quando ambos estavam no colégio, e Deborah Ramirez disse que ele se expôs para ela quando estavam na faculdade. No dia 21, Donald Trump afirmou que, se o que Ford dissera era verdade, teria dado queixa na polícia anos atrás. Mas entendo por que as duas mulheres guardaram a informação para si durante tanto tempo. Eu fiz a mesma coisa. Em 21 de setembro, porém, tuitei o que me aconteceu.

Vocês podem querer saber se eu estava bebendo na noite em que fui violentada, mas não faz diferença. Eu não estava bêbada. Talvez queiram saber o que estava usando ou se fui ambígua em relação aos meus desejos – continua não tendo importância. Eu estava com um vestido longo de manga comprida preto que deixava só os ombros à mostra.

Nós dois tínhamos passado por umas duas ou três festas. Depois, fomos para o apartamento dele. Começamos a conversar, mas estava tão cansada que deitei na cama e caí no sono. Depois disso, só me lembro de acordar com uma dor aguda, como se tivesse uma faca entre as pernas. Ele estava em cima de mim. Perguntei o que estava fazendo e ele respondeu: “Só vai doer um pouquinho”. 

“Por favor, não!”, gritei. A agonia era insuportável, mas ele continuou. Minhas lágrimas traíam meu pavor. Depois, ele disse: “Achei que fosse doer menos se você estivesse adormecida”. E me levou para casa. Não o denunciei – nem para minha mãe, nem para minhas amigas, muito menos para a polícia. A princípio, fiquei em choque. Naquela noite, ao chegar, ainda dei boa-noite à minha mãe e fui dormir, na esperança de esquecer o que acontecera.

Não demorou para eu começar a me sentir culpada. Nos anos 80, não se falava em estupro cometido pelo namorado ou conhecido. Ficava imaginando o que os adultos diriam: “O que você estava fazendo no apartamento dele? Por que estava saindo com alguém mais velho?” Na minha cabeça, nem classificava aquilo como estupro, nem mesmo sexo. Sempre achara que a perda da minha virgindade seria um acontecimento ou, no mínimo, uma decisão consciente. A perda do controle me desorientou. Para mim, quando começasse a fazer sexo, seria para expressar amor, ter prazer ou engravidar – e aquilo não se encaixava em nenhuma das três opções.

Depois, vieram outros namorados, no último ano da escola e no início da faculdade, mas menti para todos, dizendo que ainda era virgem. Bom, emocionalmente, ainda era. Hoje, quando penso no que aconteceu, percebo que já tinha aprendido certas lições. Aos 7 anos, por exemplo, um parente do meu padrasto me tocou entre as pernas e pôs minha mão em seu pênis ereto. Logo depois que contei para minha mãe e meu padrasto, eles me mandaram para a Índia, para passar lá um ano com os meus avós. Ou seja: se denunciar, você é expulsa, isolada ou rejeitada.

Essas experiências me afetaram muito, comprometeram minha capacidade de confiar nas pessoas. Levei décadas para conseguir falar sobre elas com meus parceiros e um terapeuta. Há quem diga que um homem não deve pagar pelo resto da vida por algo que fez na adolescência. Mas é exatamente isso que acontece com a mulher, e também com aqueles que a amam. Acho que se, na época, tivesse definido o que aconteceu como estupro, talvez tivesse sofrido menos. Olhando para trás, dei ao meu estuprador a chance de se safar. 

Hoje tenho uma filha. Ela tem 8 anos. Há tempos venho dizendo a ela as palavras mais simples e óbvias, mas que levei uma vida para compreender. “Se qualquer pessoa mexer em suas partes íntimas ou a fizer se sentir incomodada, grite bem alto. Saia de perto e fale para alguém. A ninguém é permitido encostar a mão em você. Seu corpo é seu.”

Agora, 32 anos depois do meu estupro, venho a público para contar o que aconteceu. Não ganho nada me expondo, mas todos temos muito a perder se estipularmos um limite de tempo para confissões sobre violência sexual ou continuarmos obedecendo aos códigos de silêncio que há gerações permitem que os homens fiquem impunes.

Uma em quatro meninas e um em seis garotos hoje serão molestados sexualmente antes dos 18 anos. Estou me abrindo agora porque quero que lutemos para que nossas filhas nunca tenham esse medo e essa vergonha, que nossos filhos saibam que o corpo feminino não existe para lhes dar prazer e a violência tem consequências gravíssimas. Essa mensagem deve ficar bem clara no momento em que se analisa quem deve fazer parte da mais alta corte dos EUA.

É APRESENTADORA E PRODUTORA DO  PROGRAMA DE TV ‘TOP CHEF’

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.