Julia Le Duc/AP
Julia Le Duc/AP

Artigo: Há quem culpe pai e filha por seu afogamento

Quando o nacionalismo desumaniza, nem todo mundo é suscetível ao que parece ser um nível básico de empatia

Philip Kennicott / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2019 | 20h43

Óscar Alberto Martínez Ramírez e sua filha, Valeria, morreram domingo depois de serem arrastados pela correnteza enquanto a família tentava atravessar o Rio Grande, para chegar aos EUA. A imagem lembra a vulnerabilidade de Alan Kurdi, um menino sírio de 3 anos cujo corpo apareceu em uma praia na Turquia em 2015. 

Ambas nos ajudam a refletir sobre como uma imagem funciona no mundo, seu poder de provocar simpatia social ou mudança política. Um registro é compartilhado nas mídias sociais e é visto repetidamente na TV a cabo e, às vezes, nas páginas dos jornais. 

À medida que circula, acreditamos que adquirirá força e familiaridade suficientes para que nossos líderes políticos venham a fazer algo diferente – mudar políticas, reverter o curso, revisar a própria compreensão sobre a gravidade de um problema.

Mas a metáfora de “romper uma barreira” depende de uma compreensão da consciência humana que está sendo duramente testada no momento, não apenas nos EUA, mas em todos os países onde nacionalismo e populismo estão criando divisões entre “nós” e “eles”. Entre o “povo” legítimo e o forasteiro supostamente ilegal.

Supõe-se que nossa consciência sofra a interferência apenas da indiferença ou da preguiça. Que, se fizermos um esforço para entender quem são essas pessoas, como morreram, como provavelmente sofreram e como nos sentiríamos em seu lugar, então a imagem pode “romper a resistência”. 

Mas quando o nacionalismo desumaniza com sucesso o outro, não há como vencer a resistência. As pessoas são forçadas, então, a lidar com uma verdade mais desconcertante: nem todas as consciências operam da mesma forma, nem todo mundo é suscetível ao que parece ser um nível básico de empatia. Nós olhamos para nossos companheiros humanos e não conseguimos entender como suas mentes funcionam. Em algum nível, pensamos: “Você não vê o que está acontece nessa imagem?”

A fotografia como um exercício de consciência exige tempo, esforço e abertura similares, mas mais profundos do que o que fazemos quando vamos ao teatro ou olhamos para uma pintura. Esta fotografia nos diz muito pouco sobre Ramírez e sua filha. Mas o importante é o esforço do espectador para senti-los como seres humanos, absolutamente idênticos em valor e dignidade a qualquer pessoa em nosso entorno mais íntimo.

Precisamos fazer o que às vezes é chamado de “ekphrasis”, do grego, uma elaboração completa do que estamos vendo e do que imaginamos que tenha ocorrido, preenchendo detalhes, acrescentando significado, estabelecendo conexões.

Você pode olhar para essa foto e pensar que sua mensagem profunda é: “Estamos todos esperando por uma vida melhor e assumiremos riscos extraordinários em favor daqueles que amamos.” Mas outro alguém provavelmente dirá: “As pessoas não devem atravessar fronteiras sem permissão”. O afogamento se torna uma espécie de castigo. Um rio representa as ideias de autoridade humana e a fotografia não vence nenhuma resistência. Apenas reitera uma crença antiga e acalentada: coisas ruins acontecem àqueles que violam as regras.

Há uma diferença fundamental entre essas duas interpretações: uma requer tempo e esforço, um ato de empatia engajada, enquanto a outra é um julgamento rápido que reafirma um sentido existente do mundo. O poder de uma fotografia como essa depende do tempo que dedicamos a ela e de nosso senso básico de quem são essas pessoas. 

No dia em que essas duas pessoas morreram no Rio Grande, o presidente dos EUA rejeitou a acusação de que havia agredido sexualmente uma colunista nos anos 90. Ele usou uma frase similar àquelas que usou no passado: “Ela não é meu tipo”. É uma coisa terrível de se dizer, com um significado especificamente misógino revelando o contexto de como os homens praticam a violência contra as mulheres por meio do estupro.

Mas é uma soma perfeita de nossa nova e deformada consciência americana. É incisivo e desdenhoso, um convite para olhar para as pessoas que foram vítimas e enxergar apenas a diferença. Ele bloqueia qualquer compreensão do trauma antes que a empatia comece a questionar como o trauma é sentido e vivenciado. Para quem quer um desvio para as demandas morais feitas por essa imagem, esta poderia ser a legenda universal: “Eles não eram o nosso tipo”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É CRÍTICO DE ARTE

 

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