Thomas Peter/Reuters
Thomas Peter/Reuters

Artigo incendiário acende especulações sobre os planos de Xi para a China

De autoria de editor aposentado e maoísta, texto diz que 'revolução profunda' está próxima

Chris Buckley, The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 20h00

Durante anos, Li Guangman, editor de jornal aposentado, escreveu na obscuridade, disparando um ataque após o outro contra celebridades e magnatas chineses que acusava de trair os fortes valores socialistas de Mao. Poucos fora do fervoroso, mas estreito, mundo dos esquerdistas maoístas da China os liam. Até agora.

Li saltou para a proeminência depois que um artigo que ele escreveu criticando a cultura das celebridades e as corporações malcomportadas ricocheteou na internet chinesa, espalhando-se por sites de extrema esquerda e em pelo menos cinco grandes portais de notícias administrados pelo Partido Comunista, entre eles o Diário do Povo, sugerindo que o texto contava com o apoio de pelo menos alguns líderes importantes.

O impulso oficial para a polêmica de Li surpreendeu os círculos políticos e empresariais chineses, quando já havia dúvidas sobre o crescente papel do Partido Comunista na economia. Entre alguns deles, o artigo deixou a impressão de que o partido poderia intensificar sua repressão às empresas privadas, apertar seu controle sobre a cultura e perseguir os ricos. Alguns críticos ressaltaram os agourentos ecos da Revolução Cultural de Mao na década de 1960, que também emergiu de ataques à elite cultural disparados por polemistas que até então eram pouco conhecidos.

Talvez surpresos com a reação, funcionários do partido e de meios de comunicação tentaram acalmar a situação, sem repudiar explicitamente Li nem remover seu artigo – o que fez a confusão persistir. Na quarta-feira, o Diário do Povo – um dos sites de notícias do partido que compartilhara o artigo de Li – publicou um editorial de primeira página dizendo que o governo continua comprometido com as forças do mercado.

Não há evidências de que o principal líder da China, Xi Jinping, ou outros altos funcionários tenham impulsionado o artigo de Li. E é improvável que a China mergulhe na turbulência da era da Revolução Cultural. Mas o alvoroço lançou uma luz brilhante sobre as tensões ideológicas agora que Xi está montando sua agenda para um provável terceiro mandato.

“Subjacentes a este episódio de Li Guangman se encontram a profunda ansiedade e a incerteza sobre o rumo para onde Xi está levando a política e as políticas públicas”, Jude Blanchette, autora de um estudo sobre os revivalistas maoístas e pesquisadora de China no Center for Strategic and International Studies em Washington, disse em uma entrevista. “É uma ansiedade baseada na incerteza sobre esta questão: onde tudo isso vai parar?”.

No artigo, Li comemora relatos de pessoas ricas sendo detidas sob acusações de agressão sexual ou multadas por evasão fiscal. Ele aplaude as investigações e as multas de algumas das maiores empresas privadas da China, acusadas de abusar de seu poder de mercado, entre elas Alibaba e Didi.

Uma “revolução profunda” está próxima, declarou Li, pois Xi vem purgando o país da podridão moral e política, abrindo caminho para o renascimento socialista sob o slogan de “prosperidade comum”.

“Essa transformação vai limpar toda a sujeira”, escreveu Li em seu artigo, publicado pela primeira vez em 27 de agosto no WeChat, uma plataforma de mídia social chinesa. “Os mercados de capitais não serão mais um paraíso onde os capitalistas podem fazer fortuna da noite para o dia. O mercado cultural não será mais um paraíso para as celebridades maricas”.

Dois dias depois, uma sucessão de sites de notícias do partido republicou uma versão ligeiramente atenuada. Esses veículos cortaram e amenizaram algumas das passagens mais incendiárias, sugerindo que queriam suavizar suas opiniões para um público mais amplo. Liberais chineses e economistas pró-mercado denunciaram o fato, o que aumentou a discussão.

A recente repressão do governo chinês às empresas e celebridades que cometem delitos reforçou a imagem de Xi como ferrenho defensor da disciplina socialista. Suas promessas de uma iminente era de maior igualdade e “prosperidade comum” aumentaram as expectativas de mudanças mais ousadas para reduzir a desigualdade social.

“Os neomaoístas viram tudo isso como um sinal verde para voltar à ativa”, disse Blanchette. “Sem maior clareza oficial, eles estão interpretando tudo isso como uma retificação fundamental do setor privado”.

Mesmo assim, Xi e seus conselheiros também tentaram tranquilizar os empresários, garantindo que a China os acolhe e respeita o papel das forças de mercado e do setor privado e que quaisquer esforços para reduzir a desigualdade serão calculados.

As mensagens oscilantes geraram incerteza sobre o rumo para onde Xi poderia liderar a China e encorajaram radicais como Li. Autoridades que permitem que esquerdistas como ele ultrapassem os limites da discussão correm muito menos risco de punição do que qualquer pessoa que mostre simpatia pelos dissidentes liberais.

Antes de conquistar a fama, Li, que tem 60 e poucos anos, havia publicado mais de mil artigos, muitos visando aqueles que ele considerava ameaças à herança socialista da China. Como editor de jornal, ele mergulhou no mundo dos esquerdistas dedicados a defender as ideias de Mao. Anos antes de Jack Ma, o fundador do Alibaba, ser submetido ao escrutínio oficial, Li já o chamava um inimigo político, personificação das tendências que ele desprezava.

Desde que esses grupos de extrema esquerda emergiram durante a onda de crescimento impulsionada pelo mercado chinês na década de 1990, eles viveram uma simbiose incômoda com o Partido Comunista. Os ativistas desses grupos somam centenas ou milhares e, muitas vezes, serviram como vigilantes do flanco esquerdo do partido, atacando dissidentes e acadêmicos liberais.

Depois que Xi assumiu o poder, muitos deles o abraçaram como sua grande esperança, e sua recente ênfase na “prosperidade comum” – expressão datada da era Mao que sugere a redução da desigualdade – aumentou suas expectativas.

“Eles acreditam que estão carregando a tocha da ideologia socialista”, disse Deng Yuwen, ex-editor de um jornal do partido, The Study Times, que agora vive nos Estados Unidos. “Se eles publicam algo com muito impacto negativo, podem ser impedidos de divulgar, mas as autoridades não vão bani-los completamente”.

A súbita proeminência de Li gerou teorias de que um líder do partido deu luz verde para promover seu ataque abrasador. Mas essa ideia se choca com a forma como as autoridades ao redor de Xi recentemente se empenharam em tranquilizar os empresários privados, afirmando que o governo os valoriza.

É muito mais provável que um funcionário de propaganda relativamente júnior tenha promovido o artigo como um ataque polêmico a celebridades e empresas censuráveis, sem prever a reação dramática, disse Deng, o ex-editor. Ele citou ecos de 2018, quando um blogueiro chinês argumentou que o setor privado deveria ser eliminado gradualmente, aumentando o nervosismo sobre as intenções do governo. Autoridades chinesas, inclusive Xi, intervieram para tranquilizar os empresários.

“Li Guangman não é muito conhecido entre nós. Não acho que tenha nenhum histórico especial”, disse Zhang Hongliang, que dirige um site vigorosamente maoísta em Pequim, por telefone. “Ele pegou um tópico quente na hora certa”.

Em resposta ao artigo, Zhang Weiying, professor de economia da Universidade de Pequim, fez uma defesa apaixonada dos mercados e do setor privado como os melhores garantidores da prosperidade e da justiça social. Gu Wanming, jornalista aposentado que trabalhava para a Xinhua, a principal agência de notícias da China, advertiu que Li usava o tipo de retórica agressiva “que só podia ser ouvida sessenta anos atrás, na Revolução Cultural”.

Até Hu Xijin, o editor-chefe do The Global Times, mais conhecido por seus ataques combativos aos críticos do partido, sugeriu em um comentário online que Li fora longe demais. “Ele emprega uma linguagem exagerada e se desvia das principais políticas de orientação”, escreveu Hu.

Mesmo assim, os esquerdistas maoístas continuam atacando Hu e outros críticos e pedindo mais controle socialista sobre a economia, em nome da “prosperidade comum” de Xi.

Pode ser que a comoção se acalme apenas quando Xi esclarecer o quanto deseja alterar a economia chinesa e qual será sua posição diante do setor privado, disse Deng.

“Um artigo no Diário do Povo não será suficiente para fazê-los recuar”, acrescentou ele sobre os esquerdistas encorajados. “Agora todos estão tentando adivinhar até onde Xi Jinping quer ir”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU. 

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