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Artigo: Líderes extremistas criam o feminismo xenófobo

Políticas no comando de partidos nacionalistas seduzem o voto feminino com discurso que atribui abusos a estrangeiros

Somini Sengupta* / The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2017 | 05h00

Alguns dos políticos de extrema direita mais bem-sucedidos da Europa são mulheres. Há Marine Le Pen da França, é claro, Siv Jensen da Noruega e Pia Kjaersgaard da Dinamarca - uma nova onda de populismo anti-imigrante que se espalha pela Europa. Elas estão liderando, ou lideraram recentemente, partidos que foram, um dia, marginais - levando suas visões extremistas à política tradicional e procurando atrair o que no passado evitava seus partidos: o eleitorado feminino. Algumas delas também estão de olho no cargo mais alto. Le Pen quer ser presidente da França nas eleições programadas para começarem em abril.

As questões de gênero não recebem muita atenção de partidos de extrema direita, sejam eles comandados por homens ou mulheres. Esses partidos não apoiam cotas de gênero em política, como muitos partidos de centro e de esquerda, nem fazem campanhas por assuntos como a igualdade de remuneração. Direitos de gays e ao aborto não são questões políticas polarizadoras para conservadores como são nos Estados Unidos, por isso não costumam ser um estopim ideológico na Europa.

O gênero é um artifício útil, porém, quando se trata de salientar o que se tornou uma de seus principais programas: a crítica da imigração, particularmente do mundo muçulmano. A extrema direita europeia há muito persegue o hijab - a veste que esconde o corpo, prescrita pelo islamismo para mulheres - como um símbolo de patriarcado. Mais recentemente, ela disse que ataques a gays e mulheres em enclaves muçulmanos eram evidências da ameaça islâmica a valores europeus.

Le Pen, num ensaio de opinião publicado no diário francês L’Opinion, usou os ataques sexuais em massa em Colônia, na Alemanha, na véspera do ano-novo em 2015, para pedir um referendo sobre imigração na França. “Temo que a crise do migrante sinalize o começo do fim dos direitos das mulheres”, ela escreveu. Le Pen também está tentando atrair eleitores gays, a quem seu pai, o fundador do partido, censurava abertamente.

Ruth Wodak, uma professora na Universidade de Lancaster no Reino Unido, chamou os apelos de Le Pen sobre questões de gênero de “oportunistas”. “Eles defendem ‘nossas’ mulheres contra o assédio por forasteiros - estrangeiros, migrantes, homens muçulmanos”, diz Wodak, autora de The Politics of Fear: What Right-Wing Populist Discourses Mean (A política do medo: o que significam os discursos populistas de extrema direita, em tradução livre). “Entretanto, nunca falaram contra o assédio sexual antes.”

O quanto é incomum uma mulher chefiar um partido nacionalista? O mesmo tanto que é incomum uma mulher chefiar qualquer partido político. Enquanto algumas pertencem a dinastias políticas, como é o caso de Le Pen, outras venceram por esforço próprio.

Frauke Petry, ex-química e empresária, depôs um ex-líder focado na Europa do partido Alternativa para a Alemanha e transformou o partido numa agremiação abertamente nacionalista. Seu programa para as eleições nacionais programadas para o segundo semestre tem como alvo os estrangeiros - e a chanceler alemã Angela Merkel, por protegê-los.

Kjaersgaard, uma das primeiras precursoras da extrema direita europeia, criou o Partido Popular Dinamarquês em 1995 e transformou ideias um dia vistas como marginais e racistas sobre a restrição à imigração numa poderosa força política. Seu partido tem sido fundamental no respaldo de um governo minoritário e isso tem influído muito na política. Kjaersgaard é hoje a presidente do Parlamento dinamarquês, embora não seja mais a líder do partido.

Jensen propeliu seu Partido do Progresso anti-imigrante para um governo de coalizão na Noruega pela primeira vez - e abocanhou um influente cargo de ministra das finanças no gabinete. Ela se descreve como uma conservadora defensora do livre mercado na tradição thatcherista. Mas também explorou os temores do Islã, advertindo num muito criticado discurso de 2009 sobre a “islamização insidiosa” da sociedade europeia.

A extrema direita terá conseguido seduzir o eleitorado feminino? Não muito, mas está começando. Um estudo realizado em 17 países por pesquisadores suecos e holandeses e escrito no final de 2015 numa publicação acadêmica com o título “Patterns of Prejudice” (Padrões do preconceito, em tradução livre), revelou menor probabilidade de mulheres (em relação a homens) votarem no que o estudo chamou de “direita radical populista” - mas não porque as mulheres fossem contra a ideologia.

Os homens não são mais “nativistas” nem mais “autoritários” em comparação com as mulheres, revelou o estudo, nem as mulheres evidenciam menos “insatisfação” com seus governos. As mulheres em geral eram dissuadidas de votar na direita radical por outras razões, entre elas o estilo político (da direita populista), a ocasional associação com violência histórica, a estigmatização por partes da elite e do público em geral.

Nesse ponto, o gênero do líder pode fazer uma diferença positiva para a extrema direita, avalia Cas Mudde, um pesquisador holandês da extrema direita holandesa. Na mídia, líderes masculinos são mostrados muitas vezes como fanáticos sedentos de poder. “Mulheres políticas são representadas com mais suavidade”, disse Mudde, que leciona na Universidade da Geórgia. “Para um político da direita radical isso pode ser muito vantajoso.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É JORNALISTA

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