Evan Vucci / AP
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Artigo: Livro e editorial ilustram esforços para conter o presidente

Os detalhes dos dois cristalizam o que tem sido evidente: funcionários alarmados pelos caprichos de um Trump imprevisível

Philip Rucker, Ashley Parker, Josh Dawsey e Greg Jaffe / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 05h00

As revelações desta semana sobre a existência de uma força de “resistência” de altos funcionários do governo atuando como grade de proteção contra o presidente Donald Trump – manipulando-o, infantilizando-o e ignorando suas diretrizes – levantaram o espectro de uma burocracia conspiradora. “Quem está no comando da Casa Branca?” gritou um repórter para Trump na quinta-feira. O presidente não respondeu.

Um editorial anônimo no New York Times e um novo livro de Bob Woodward, Fear (Medo), detalham os esforços no alto escalão do governo para conter os impulsos de Trump e, nos casos mais extremos, desafiar e até mesmo minar suas ordens. As divulgações sucessivas cristalizaram o que tem sido evidente durante a presidência de Trump – um quadro de funcionários do governo alarmados pelos caprichos e desejos de um chefe que consideram imprevisível e impetuoso, trabalhando para conter seus instintos em uma série de questões, incluindo Segurança Nacional, comércio e imigração.

A pressão do governo centrou-se na insistência do anonimato pelo funcionário e na decisão do Times de publicar a coluna sem o nome do autor, mas os assessores de Trump não contestaram o conteúdo da coluna.

Funcionários de alto escalão têm agido por muito tempo para retardar ou frustrar algumas das ideias e diretrizes do presidente. Quando era chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus tinha uma estratégia favorita, segundo seus colegas: dizer ao presidente que executaria uma ordem, ou uma demissão, mas não até “a próxima semana”. Até lá, Trump em geral teria esquecido do caso.

Em seu novo livro, Woodward narra vários episódios em que os auxiliares recorreram a subterfúgios contra seu chefe. Em um desses casos, Trump escreveu uma carta para retirar os EUA do acordo comercial com a Coreia do Sul. Gary Cohn, então principal conselheiro econômico de Trump, retirou o documento da mesa do presidente para que ele não pudesse assiná-lo.

No verão de 2017, Trump sugeriu ao então conselheiro de Segurança Nacional, H.R. McMaster, que os EUA invadissem a Venezuela para destituir seu autocrático presidente, Nicolás Maduro. McMaster fez o que pôde para dissuadir Trump – e achou que havia conseguido – até Trump mencionar a possibilidade publicamente em uma reunião com líderes latino-americanos na Assembleia-Geral da ONU.

Um alto funcionário da Casa Branca explicou por que Trump insiste: “Mesmo quando a equipe diz não, acho que ele tem esperança de encontrar alguém que pense ser uma boa ideia.” A invasão imaginada por Trump nunca ocorreu.

Mas o conspiratório e às vezes paranoico Trump sentiu um gostinho de vingança lendo a coluna do Times, vendo-a justificar sua crença de que o “Estado dentro do Estado” e outros inimigos internos estão tentando derrubá-lo. “O efeito prático de tudo isso é que ele fica mais isolado, encarando a presidência cada vez mais como uma banda de um homem só”, disse um funcionário da Casa Branca. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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