Kevin Lamarcque/Reuters
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Artigo: Manual de Trump para aspirantes a autocrata

Abordagem tem como princípios a ênfase no nacionalismo, a centralização do poder e o predomínio da emoção sobre a razão

David Held e Kyle McNally, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2017 | 05h00

Desde que prestou juramento no cargo, Donald Trump emitiu uma atordoante sucessão de ordens executivas, desafiou abertamente princípios fundamentais da Constituição americana e deflagrou conflitos diplomáticos com vários países, incluindo antigos aliados dos Estados Unidos.

Trump já foi descrito como demagogo, autoritário e até fascista. Embora só o tempo possa dizer se ele pretende ultrapassar todos os limites institucionais, enfraquecer e atropelar restrições constitucionais e fugir de todas as responsabilidades das leis internacionais, os princípios e métodos que guiam sua política revelam, no mínimo, uma vontade autoritária. Sua vitória no ano passado e suas ações desde que tomou posse são indícios de como o autoritarismo pode ressurgir no século 21, derrotando justamente as instituições criadas para impedir sua volta.

Quatro princípios básicos sustentam a abordagem de Trump. O primeiro é a ênfase num nacionalismo excludente, que defende os interesses dos Estados Unidos em detrimento de todas as noções de solidariedade internacional e do bem comum. 

O segundo, a tentativa do presidente de centralizar o poder em suas mãos e nas de pessoas próximas a ele – o que põe em discussão o império da lei e a divisão de poderes que definem a democracia americana. O terceiro, o predomínio da emoção sobre a razão, pondo o que ele e seus adeptos pensam no lugar do que a evidência mostra. O quarto é a demonização dos opositores políticos, de estadistas a juízes.

Táticas. Ligada a esses princípios está uma série de táticas para desorganizar opositores e encorajar adeptos. Qualquer ameaça à legitimidade ou ao capital político de Trump é vista como resultante de uma suposta fraude eleitoral – não importando quão vazio possa ser esse argumento. 

Trump não consegue suportar a ideia de que sua derrota no voto popular seja algo além de uma grande conspiração de eleitores ilegais. Mais ainda: a oposição popular – por exemplo, os protestos em todo os Estados Unidos desde a posse – é rejeitada como obra de desordeiros pagos. Fatos inconvenientes e evidências simplesmente não contam.

Além disso, com o objetivo de fortalecer sua base de apoio há também uma constante série de ataques a pessoas ou grupos que representam judeus, muçulmanos, negros, membros da comunidade LGBTQ e mulheres em geral. Qualquer crítica na imprensa – de novo, a despeito dos fatos objetivos que possa ter como base – é tida simplesmente como “notícia falsa”. Em síntese, existe a verdade de Trump e a de seus apoiadores – o restante são fraude, falsidades, conspirações e, sobretudo, antiamericanismo.

Trump adora todo tipo de revisionismo – reescrever a história, distorcer fenômenos observáveis e saturar o público com incansáveis narrativas e falsidades disparadas pelo Twitter.

E com que finalidade? Para começar, seus apoiadores sentem-se vingados e poderosos em um mundo que ultrapassa sua compreensão. Líderes republicanos no Congresso, na maioria, tentam cumprir suas antigas promessas de cortar impostos empresariais e sobre fortunas, acabar com o sistema de saúde de Obama, derrubar leis de proteção ambiental e desregulamentar a economia a níveis pré-crise financeira.

Trump, de sua parte, busca derrotar o establishment político de Washington (quando não, destruí-lo), pisotear qualquer oposição democrática, fazer os americanos se sentirem novamente seguros por meio da construção de muros, banir pessoas “ruins” e, ainda, armar mais a polícia e as forças militares – enquanto, de algum modo, faz os Estados Unidos novamente grandes aumentando investimentos em infraestrutura e pondo a população para trabalhar (apesar do recorde de emprego sob o governo de Obama).

Guerra perpétua. Isso seria feito conjuntamente com a desestabilização de alianças tradicionais, o enfraquecimento de aliados dos Estados Unidos – principalmente a Europa – e o relacionamento com líderes autoritários, de Vladimir Putin (Rússia) a Rodrigo Duterte (Filipinas). Para tanto, Trump vai ameaçar com guerras comerciais e o uso das Forças Armadas – pessoas próximas a ele exaltam as virtudes da guerra perpétua como meio de fortalecer o poder americano e enfrentar o mundo.

É difícil ver um lado positivo nisso tudo. Se Trump tiver sucesso, os Estados Unidos verão erodir suas instituições democráticas e autoridade constitucional, crescer o desprezo para com os opositores internos e externos e a consolidação de uma política forte e exclusivista que atropela todos em seu caminho. 

Se Trump fracassar, sua tendência a procurar desculpas e a culpar os outros vai apenas crescer. Os riscos são enormes, incluindo uma nova era de guerra que vai nos levar de volta às calamidades de tempos anteriores. Qualquer oposição confiável precisa começar a compreender esses riscos e encontrar novos meios de limitar o objetivo e alcance das aspirações de Trump. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

HELD É EDITOR DO JORNAL GLOBAL 

POLICY. MCNALLY É PESQUISADOR DO GLOBAL POLICY INSTITUTE DA 

UNIVERSIDADE DURHAM

 

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