Rob Carr/Getty Images/AFP
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Artigo: Me recuso a organizar atividades escolares caseiras durante a pandemia

'Meus filhos estão assistindo TV, jogando videogame e comendo porcaria. Tudo bem', diz professora americana

Jennie Weiner, The New york Times, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2020 | 17h57

Meus filhos estão assistindo TV, jogando videogame e comendo porcaria. Tudo bem.

Graças ao coronavírus, meus gêmeos do terceiro ano estão em casa o dia todo, situação que não deve mudar no futuro próximo. Não vou recriar as atividades escolares para eles. Podem me julgar.

Em respeito aos incríveis professores deles, faço um esforço legítimo para que as crianças cumpram as tarefas escolares que recebem em casa, mas isso está longe de corresponder ao que teria sido um dia de aula. Depois de realizarem o mínimo, o objetivo é sobreviver e assistir TV até não aguentar mais. Comemos porcarias de todo o tipo e torcemos pelo melhor. Amamos uns aos outros e tentamos não enlouquecer.

Quando ficamos sabendo que as escolas fechariam, tive certeza que logo surgiriam publicações nas redes sociais com dicas de organização das atividades escolares em casa, atividades incríveis e relativamente trabalhosas (para os adultos) destinadas às crianças.

Minha previsão estava correta: vimos agendas escolares organizadas por cor, com cada minuto programado, recursos online ensinando as crianças a praticar ioga e meditação, aulas de francês, e até um passo a passo de como construir um foguete. Pais e mães compartilham receitas de bom equilíbrio nutricional para melhorar a produtividade dos estudos. Muitos já começaram a lamentar ao ver que não conseguiriam atender essas novas expectativas.

Quero mandar um recado aos pais, e principalmente às mães que trabalham, que inevitavelmente assumirão a maior parte desse fardo caseiro ao mesmo tempo em que trabalham remotamente: será uma bagunça, e tudo bem.

Não sou especialista em turmas de terceiro ano, e não tenho as habilidades das professoras de um dos meus filhos, que tem necessidades especiais e recebe numerosos serviços de educadores profissionais todos os dias para garantir seu desenvolvimento. Somos infinitamente gratos a esses profissionais e aos professores do meu outro filho por sua paciência, sabedoria e habilidade. Sabemos que não temos essas qualidades.

E não sou especialista na criação de crianças - algo óbvio para quem conhece meus maravilhosos e às vezes selvagens filhos. Mas sei, a partir de experiências às vezes dolorosas em primeira mão, que transformar a maternidade em um esporte competitivo é algo nada saudável. Não é um jogo do qual eu esteja disposta a participar.

Eu e meu marido trabalhamos em período integral. Como tantos outros, estamos tentando manter nossa família em segurança e alimentada durante o fechamento geral imposto pelo governo estadual em resposta à Covid-19 enquanto tentamos convencer nossos pais a praticar o distanciamento social, mantendo o contato com os entes queridos e evitando o pânico.

Mesmo quando tudo na nossa vida funciona como deveria, e com todos os privilégios dos quais gozamos - nosso sólido sistema de saúde, nossa estabilidade econômica, nossa branquitude - frequentemente nos sentimos sobrecarregados. Assim sendo, essa pandemia parece a última gota d'água. Tivemos que encará-la de frente: segurando a respiração, cruzando os dedos. E sem julgamentos.

Ouvi previsões de outros pais dizendo que esse período sem ensino na sala de aula poderia levar meus filhos (eles têm oito anos) a ficarem tão defasados no ensino que a universidade não estará mais entre as opções para o futuro deles. Detesto pensar em como outros pais mortos de preocupação com a perda de renda e as dificuldades no abastecimento devem se sentir tentando garantir o bem estar de suas famílias.

Devem se sentir aterrorizados ao pensar que seus filhos não conseguirão acompanhar os estudos enquanto mães e pais com mais flexibilidade, mais segurança e até ajuda em tempo integral falam a respeito de suas agendas agressivas de enriquecimento infantil no lar. Talvez seja o momento perfeito para um tempo na disputada corrida acadêmica que, convenhamos, nunca foi saudável.

Sim, aceitamos a necessidade de uma programação, alternando-nos para dar atenção aos filhos enquanto eles navegam pela internet para garantir que estejam interagindo com conteúdo apropriado para a sua idade (claro que um dos meninos queria aprender a respeito de bombas).

Por enquanto, já os vimos pesquisando os mastodontes, planetas anões, o robô explorador Mars rover, em Marte, e quem criou o Lego e por quê. Eles têm lido bastante (principalmente quadrinhos e livros infantis) porque meus filhos sempre foram leitores vorazes e não preciso convencê-los a ler. 

Mas não há fichas de conteúdo nem projetos pré-preparados para “enriquecer” a rotina deles. Não pedimos que escrevam trabalhos nem garantimos que seus experimentos se enquadrem nas disciplinas do núcleo básico. Não há horário oficial para “mexer o corpo” ou estudar música. Não preparamos uma sala de aula improvisada nem demos um nome à “escola" da família.

Cozinhamos e fazemos testes para descobrir quais são as melhores receitas de biscoitos, porque gostamos de biscoitos e eles estão entre as poucas coisas que sei preparar. Andamos e andamos e andamos. Comemos juntos. Pensamos em como temos sorte e tentamos ajudar aqueles em situação mais vulnerável, que não dispõem dos nossos recursos.

Por enquanto, os meninos jogaram mais videogame e assistiram a mais horas de TV do que em qualquer outra semana antes do fechamento das escolas. É algo que os mantêm distraídos enquanto eu e o pai deles tentamos terminar as reuniões antes que o programa falhe.

Nós nos amamos, gritamos, pedimos desculpas, rimos, eles brigam, gritamos um pouco mais, e fazemos as pazes. Vivemos, tentamos manter viva a compaixão e esperamos que tudo isso seja logo apenas uma lembrança. E, quando tudo passar, o dever de casa estará esperando.

Nota do editor: Jennie Weiner é professora-assistente de liderança pedagógica da Universidade de Connecticut. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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