Kevin Lamarque/ Reuters
Kevin Lamarque/ Reuters

Artigo: Morte de senador marca fim de uma era

McCain usava posição em comitê para criticar Trump; sem ele, Congresso deve assumir posições mais submissas à Casa Branca

KAROUN DEMIRJIAN* / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2018 | 05h00

A morte do senador John McCain é prenúncio de uma grande mudança no Congresso para o governo de Donald Trump. McCain eram um dos republicanos mais críticos ao presidente. Desde o início, McCain usou seu cargo de presidente da Comissão de Serviços Armados para questionar a posição de Trump sobre questões como Rússia, tortura e imigração. O controle da comissão passa agora para o senador James Inhofe, aliado da Casa Branca. 

Outro que deixará seu cargo é Bob Corker, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado. Corker é outro crítico da diplomacia caótica de Trump. No início de 2019, ele passará seu posto para o senador James Risch, aliado do presidente.

A saída de ambos significa uma mudança radical na forma como o Congresso deveria usar sua autoridade para supervisionar a agenda do presidente. “Corker e McCain fizeram um bom trabalho. Eles realmente questionaram o presidente de seu próprio partido quando foi necessário”, disse o ex-secretário de Defesa Chuck Hagel, republicano que também foi senador. “Isso vai mudar, não resta dúvida sobre isso.”

McCain e Corker sempre foram elogiados pela tenacidade com a qual exerceram a fiscalização de governos democratas e republicanos. Como ex-candidato presidencial, herói da Guerra do Vietnã e um dos mais reconhecidos estadistas americanos, McCain foi um dos poucos congressistas que, muitas vezes, mantinham mais autoridade em questões de segurança nacional do que o próprio comandante-chefe – qualidade que ele costumava usar para desafiar os presidentes. Desde que Trump assumiu o cargo, esse embate vinha ocorrendo com mais frequência, especialmente em assuntos ligados à Rússia.


McCain e Corker sempre criticaram as ações de Trump com relação ao presidente russo, Vladimir Putin. Ambos foram cruciais, no ano passado, para que o Congresso aprovasse sanções que limitaram a autoridade da Casa Branca para reduzir as medidas punitivas contra Moscou sem a aprovação dos congressistas.

Diante das declarações de Trump, que eles acreditavam ser intencionalmente pensadas para minar a Otan, McCain e Corker lideraram os esforços do Congresso americano para reafirmar o compromisso dos EUA com seus aliados da aliança atlântica. “Não consigo imaginar o Senado sem Bob Corker e John McCain. Às vezes, nos chocávamos de frente, mas nunca duvidei por um segundo que eles eram pessoas sérias”, afirmou o ex-secretário de Estado dos EUA John Kerry.

McCain e Corker foram duros críticos de Kerry em razão da política externa do governo de Barack Obama, incluindo o acordo com o Irã, que pretendia acabar com as sanções internacionais em troca de restrições em seu programa nuclear. Os dois se opuseram ao pacto, embora Corker mais tarde tenha instado Trump a não se retirar dele.

“Você precisa de pessoas assim, em ambos os partidos, para criar uma massa crítica capaz de fazer alguma coisa. Senão, você cria um grande desestímulo que abre caminho para que os piores deem as ordens”, disse Kerry.

Muitos colegas de Senado temem agora que o Congresso perca autonomia quando Inhofe e Risch assumirem seus cargos, preocupados com o fato de ambos serem fiéis à Casa Branca. “Ao longo dos anos, transferimos muita autoridade para o Executivo. É preocupante que a nova liderança esteja mais perto do presidente e não encare o Poder Executivo com o mesmo ceticismo”, disse o senador Jeff Flake, que também é um critico da política externa de Trump e já anunciou sua aposentadoria no fim do ano. “Eles são menos propensos a questionar as manobras do presidente. O Congresso será menos independente.”

*É JORNALISTA

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