Artigo: Mubarak ainda governa

Líderes políticos do Egito criam normas, leis e regulamentações que favorecem seus próprios interesses

Steven A. Cook *, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h11

O Egito está tão distante da promessa revolucionária da Praça Tahrir quanto estava em novembro de 2010, quando o então ditador Hosni Mubarak realizou as eleições parlamentares mais fraudulentas da história do Egito.

Atualmente, a revolução, que na realidade jamais existiu, acabou. Os egípcios dormirão com o toque de recolher e despertarão com a odiada lei de exceção que coloca o país novamente sob o governo militar.

O governo provisório afirma que a medida é temporária, que durará apenas um mês. No entanto, considerando as atuais circunstâncias no Egito, dificilmente isto ocorrerá. Os partidários do presidente deposto Mohamed Morsi intensificaram sua campanha irracional contra os cristãos coptas e a violenta repressão das manifestações pacíficas da oposição, provavelmente, apenas contribuirá para uma maior radicalização.

Porta-vozes do governo interino afirmam que estenderam a mão à Irmandade Muçulmana, procurando sua colaboração para a transição, mas que ela a rejeitou. É claro. Não só foi uma boa estratégia política permanecer nas ruas e desacreditar um processo político nascido de um golpe. O movimento islâmico sabe que o convite à "inclusão" em um governo interino, principalmente depois do golpe de 3 de julho, não era sério.

A própria Irmandade Muçulmana fez apelos para o diálogo - igualmente insinceros - para a inclusão dos seus adversários enquanto, ao mesmo tempo, trabalhava para institucionalizar o poder do movimento em um novo sistema político.

NOVA ORDEM

Assim como o sistema político do Egito antes do levante de 25 de janeiro de 2012 foi manipulado para favorecer Mubarak e seu eleitorado, a Irmandade Muçulmana tratou de implantar uma nova ordem que a favorecesse também.

Agora, os vencedores de hoje construirão um sistema político que reflita os seus próprios interesses. Isto não é nada surpreendente nem um fato sui generis no mundo. Também nos Estados Unidos normas, regulamentações e leis existem em função dos poderosos.

No entanto, nos Estados Unidos, existe a capacidade de mudança. No Egito, essas instituições inexistem. Embora praticamente todos os atores políticos egípcios tenham usado habilmente a linguagem da reforma política e abraçado ideias liberais, eles procuraram exercer o poder por meio da exclusão.

Desse modo, criou-se um ambiente em que os derrotados não processam suas reclamações por meio de eleições, de debates parlamentares, da criação de consenso político e do compromisso, mas por meio de intervenções militares e de manifestações de rua.

Isto é manipulado pelos grupos poderosos que atuam no interior do Estado e trabalham para restaurar a antiga ordem no Egito, desde o tempo em que Hosni Mubarak deixou o poder e mergulhou na ignomínia, há pouco mais de dois anos e meio.

No governo da Irmandade Muçulmana não era "um homem, um voto, um momento", como os islamófobos gostavam de advertir, mas a imposição de um sistema eleitoral que procurava "um homem, um voto, para sempre".

Após a destituição de Morsi, muitos egípcios e observadores declararam recentemente: "Isto não tem volta". Em outros tempos, essa confiança na evolução democrática do Egito parecia uma simples bravata otimista. Agora, entretanto, é simplesmente trágica.

*Steven A. Cook é pesquisador de Oriente Médio do Council On Foreign Relations e autor do livro "A luta pelo Egito: de Nasser à Praça Tahrir".

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.