Artigo: Não existem lobos solitários

Artigo: Não existem lobos solitários

Supremacistas brancos não agem isolados, eles acharam uma missão, o apoio de colegas e a aceitação tácita de autoridades omissas

Juliette Kayyem / W. Post, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2019 | 05h00

O assassinato em massa em um supermercado Walmart de El Paso no sábado foi supostamente perpetrado por um jovem branco que, segundo a polícia, parece ter postado um manifesto racista online, anti-imigrantes, minutos antes do ataque, alegando a necessidade de se combater “a invasão hispânica do Texas”.

Tal ódio supremacista não é apenas uma crença venenosa cultivada por indivíduos isolados. É um fenômeno de grupo que, de acordo com o FBI, é a maior ameaça terrorista nos Estados Unidos. O tiroteio de El Passo, que deixou pelo menos 20 mortos e mais de duas dezenas de feridos, foi seguido horas depois por um assassinato em massa em Dayton, Ohio, em que nove pessoas morreram. O atirador de Dayton também morreu, e no domingo a polícia ainda não sabia qual fora sua motivação.   

Se o massacre de El Paso tiver sido o crime de ódio de que a polícia suspeita, será mais um exemplo de que, considerar-se o que acontece hoje nos Estados Unidos como algo próximo a um conflito ideológico – com um lado fortemente armado e o outro comprando material escolar no Walmart – é desconectar cada incidente individual da retórica terrorista que o alimenta. 

O terror supremacista branco está enraizado num grupo, numa comunidade. E sua manifestação violenta atual é alimentada por três diferentes (mas complementares) credos. Essencialmente, essa comunidade encontrou uma missão, parentesco e aceitação. 

Primeiro, a missão

Jovens brancos são hoje a última geração de americanos nascidos quando o número de nascimentos de brancos superava o de não brancos. Sete anos atrás, o censo informava que minorias, particularmente hispânicos, eram a maioria dos novos nascidos nos EUA, tendência que vai continuar. Esse desenrolar pode ser visto como algo natural numa nação de imigrantes ou, na interpretação de supremacistas brancos, como um “genocídio de brancos” controlado por judeus.

Em outras palavras, os supremacistas brancos não apenas desprezam “os outros”: eles veem sua simples existência como parte de um jogo em que todos sairão perdendo. Essa sensação de “grande substituição” vai além de seu grupo. Ela encontra voz entre políticos como o senador John Corny, republicano do Texas, que mandou em junho um tuíte para o Texas Tribune, sem contextualizar, com o título: “O Texas ganhou no ano passado quase nove residentes hispânicos adicionais para cada residente branco”.

Segundo, o parentesco

O terrorismo supremacista branco tem o que parece ser um aplicativo de encontros online, juntando tanto indivíduos de grandes plataformas da mídia social quanto de sites mais remotos, como 8chan, que existe para propagar o ódio. É online que, em grande parte como o terrorismo islamista, os supremacistas encontram amigos e colegas que validam e amplificam sua ira.

Quando um deles transforma sua retórica violenta em ação, é frequentemente chamado de “lobo solitário”, mas de solitários eles não têm nada. Ganham força e proteção de indivíduos com mentalidade semelhante. Ninguém diria que um adepto da Ku Klux Klan que comparece a uma reunião da organização nos campos seja um lobo solitário. 8chan e outros sites proporcionam reuniões semelhantes na selva digital.

Finalmente, a aceitação

É simplista culpar o presidente Donald Trump e sua retórica inflamada pela ascensão da violência dos supremacistas brancos. Mas isso não significa que sua linguagem não seja um fator que contribui para o fato. Historicamente, ideologias  racistas não morrem. O nazismo sobreviveu à 2ª Guerra. Comunidades evoluíram para isolar xenofobia e racismo antes aceitáveis, mas elas também podem retornar ao ódio.

As similaridades do linguajar de Trump sobre hispânicos, imigrantes e afroamericanos caracterizam-nos como “outros” e são imitadas por supremacistas brancos. Sua retórica, embora não promova especificamente a violência, também não chega a condená-la (até depois de ela ocorrer). 

Trump não ataca o supremacismo branco. Isso é o que todos precisam saber. Um presidente responsável, que sinta  que sua linguagem possa estar sendo mal interpretada e contribuindo para a maior ameaça terrorista nos Estados Unidos de hoje, seguramente mudaria a retórica. Ao não fazer isso, Trump abre caminho para a violência. E mostra que não está condenando os que aderem a ela. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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