Jim Lo Scalzo/AP
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ARTIGO: No confronto Donald Trump versus FBI, Trump será vencido

Trump pode vencer a batalha no tocante à divulgação pendente de um memorando injurioso elaborado pelos republicanos do Comitê de Inteligência da Casa Branca, mas não vencerá a guerra.

Tim Weinser, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2018 | 06h00

O presidente Donald Trump assumiu a presidência no ano passado como uma figura singular. Mas se assemelha a dois dos seus predecessores num aspecto crucial. Embora seja mais paranóico do que Richard Nixon e mais desonesto do que Bill Clinton, ele parece propenso a segui-los no caminho para o inferno: um confronto com o FBI. E como Nixon e Clinton, ele também será vencido.

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Trump pode vencer a batalha no tocante à divulgação pendente de um memorando injurioso elaborado pelos republicanos do Comitê de Inteligência da Casa Branca, um porrete criado para atacar todos os encarregados da investigação federal da Equipe Trump. Ele pode demitir todos, mas não vencerá a guerra.

 Temos uma boa idéia do que contém esse memorando envenenado de quatro páginas. Ele se refere a uma teoria de conspiração sobre um grampo telefônico da segurança nacional em 2016 sobre o antes obscuro assessor de campanha de Trump, Carter Page. E afirma, basicamente, que o vice-ministro da Justiça, Rod Rosenstein, e líderes do FBI, enganaram o juiz federal que aprovou o sigilo do telefonema grampeado até 2017. 

O FBI qualificou o memorando de substancialmente falso e mentiroso em um comunicado não assinado na quarta-feira. Christopher Wray, que Trump nomeou depois de demitir James Comey, enfatizou pessoalmente o perigo de se publicar o memorando. O Departamento de Justiça declarou que a divulgação do documento seria “terrivelmente imprudente”.

Contudo Trump sinalizou seu desejo de que ele se torne público, na íntegra. Claramente ele considera o memorando uma arma de guerra política – uma maneira de se livrar de Rosenstein, que supervisiona o FBI e o promotor especial que investiga a Casa Branca, Robert Mueller. Rosenstein deixou claro que não dispensará Mueller por capricho do presidente – o que, para o presidente, significa que ele tem de sair.

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Se remover Rosenstein, Trump pode encontrar um substituto em algum lugar dentro do Departamento de Justiça. Ele quer uma marionete, um algoz obediente, mais leal a ele do que à Constituição – alguém para cumprir às cegas seu mandato, demitir Mueller e refrear os agentes do FBI que conduzem a investigação da Casa Branca.

Trump deixou claro seu antagonismo. Não é uma crença desinteressada de que o FBI é corrupto e precisa de uma reforma. Ele estava no cargo há apenas seis dias quando os agentes foram à Casa Branca para interrogar o assessor de segurança nacional Mike Flynn, envolvido em falcatruas com a Rússia. Flynn mentiu ao FBI.

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Naquele momento um caso de contra-inteligência se transformou em caso criminal centrado na Casa Branca. Desde então o presidente tem feito tudo em seu poder para subverter e sabotar os investigadores. Demitiu Comey por ter se recusado a engavetar o assunto – e depois o acusou de mentiroso chantagista. Denunciou o departamento e seus líderes em tuítes e entrevistas e em comentários a funcionários da Casa Branca, que foram vazados.

Agora ele está às vésperas de reeditar o Massacre de Sábado à Noite, quando Nixon obrigou seu secretário de Justiça e o segundo na linha de sucessão a demitirem o promotor especial que investigava o Watergate. O promotor especial leal a Nixon que assumiu em outubro de 1973 era o terceiro na ordem de sucessão na Justiça, o procurador geral Robert Bork. No final daquela noite fatídica, Nixon prometeu a ele um assento na Suprema Corte. Mas as coisas deram mal para todos os envolvidos. Nixon renunciou e as medidas de Bork o arruinaram na sua mal sucedida nomeação para a Corte.

Onde está o Robert Bork de Trump?   Poderá ser a procuradora geral Rachel Lee Brand, ex-professora da Antonin Scalia Law School e hoje a terceira na linha de sucessão dentro do Departamento de Justiça? Desejaria ela ter a mesma influência com base na qual Bork trabalhou por toda sua vida?

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Talvez. Mas como Nixon aprendeu, um presidente não pode demitir para tentar sair de uma crise. Apesar das degradações e depredações que este presidente infligiu ao Executivo, ainda existe uma legião de pessoas honradas no Departamento de Justiça e no FBI mais comprometidas com os princípios do que com a política, dispostas a assumir a responsabilidade em vez de serem subornadas no caso de crimes envolvendo a presidência. Christopher Wray é um deles.

Quando prestou juramento há quatro meses ele disse a uma platéia de agentes do FBI que defenderia a Constituição e seguiria o disposto na lei. “Vamos investigar os fatos de maneira independente, não importa onde levarem e nem quem gostará disto. E iremos sempre, sempre em busca da Justiça”.

Os que redigiram a  Constituição previram tempos como este. Mas não o surgimento de um líder como Donald Trump, um homem mais semelhante ao louco rei George da Inglaterra do que a Madison ou Jefferson. Eles sabiam que nem todos os presidentes seriam esclarecidos. Mas nunca sonharam que um deles seria tão ignorante, tão cego a ponto de colocar a lealdade pessoal acima da lei.

O presidente vem pensando na destituição de Mueller há meses. À medida que os agentes se aproximam do Salão Oval, ele pode afiar sua espada e colocar a cabeça do promotor em uma estaca. Neste caso terá de afrontar a Constituição. E perderá novamente. / Tradução de Terezinha Martino

 

 

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