Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

Artigo: Nos EUA, terroristas preferem armas a carros

Entre usar um veículo ou uma arma, o indivíduo disposto a cometer um ataque escolherá o mais eficaz: a metralhadora

Amanda Erickson / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2017 | 05h00

Um homem avançou com sua van contra pedestres em uma via de grande circulação em Barcelona, matando 13 pessoas. O terrorista que roubou um caminhão e investiu contra uma multidão de pessoas que comemoravam o Dia da Bastilha, em Nice, causou a morte de 86 pessoas. O ataque contra um mercado de natal em Berlim deixou 12 mortos. 

+Após ataque em Nova York, Trump anuncia início do processo para encerrar 'loteria de vistos'

Desde 2014 foram pelo menos 14 atentados perpetrados com veículo nos Estados Unidos e na Europa. Nos últimos três anos, metade das mortes ligadas a atos terroristas no Ocidente resultou de ataques desse tipo, segundo estudo recente.

Mas até terça-feira, quando um cidadão do Usbequistão dirigindo uma caminhonete alugada invadiu uma ciclovia no sul de Manhattan, matando 8 pessoas e ferindo outras 11, essa tática praticamente não havia sido utilizada nos EUA por extremistas islâmicos.

Por que? De acordo com especialistas, há muitos fatores em jogo. No geral, atentados terroristas têm sido mais raros nos EUA pois suas fronteiras são menos porosas e muitos acreditam que os imigrantes tendem a se integrar melhor do que na Europa. 

Para Jeffrey Ringel, veterano do FBI, os americanos também estão mais capacitados para compartilhar informações sobre ameaças terroristas potenciais porque todos os Estados trabalham com base num único sistema federal. Henry Wilkinson, diretor de análise de inteligência no Risk Advisory Group, citou outra razão: é muito fácil você obter armamento nos EUA, portanto armas de fogo são as preferidas dos terroristas. 

Em 2015, Syed Rizwan Farook e Tashfeen Malik mataram a tiros 14 pessoas em San Bernardino, Califórnia. O casal havia jurado lealdade ao Estado Islâmico (EI) pela web. Em Orlando, Omar Mateen matou a tiros 49 pessoas na boate Pulse. Um atentado no quartel militar de Ford Hood em 2009 causou a morte de 13 pessoas. “Se um indivíduo está disposto a realizar um ataque terrorista, parece mais lógico que ele vá utilizar o meio mais eficaz de realizar tal ataque e, entre usar um veículo ou uma metralhadora, provavelmente deve preferir a metralhadora”, diz Wilkinson.

Na Europa as leis sobre compra e porte de armas são muito mais rígidas e poucas armas de fogo estão em circulação – apesar disso, em alguns dos piores atentados ocorridos no continente, incluindo o ataque à redação do Charlie Hebdo e ao clube Bataclan, os terroristas usaram armas.

Transformar um carro em arma não é algo novo. Carros-bomba são armas poderosas há anos, mas usar atropelamentos como arma é uma estratégia nova. Especialistas afirmam que a tática se popularizou em 2008, quando palestinos usaram carros e escavadeiras para atacar israelenses em Jerusalém. Em 2010 a Al-Qaeda na Península Arábica recomendou essa estratégia para seus seguidores na sua revista online Inspire. Um ano depois, o ex-porta-voz do EI Abu Muhammad al-Adnani, reiterou: “Se não conseguir um dispositivo explosivo improvisado ou munição, então identifique os infiéis americanos, franceses ou qualquer dos seus aliados. Esmague sua cabeça com uma pedra, o trucide com uma faca ou avance com seu carro em cima dele”.

Nos EUA, há precedentes dessa tática. Em 2006, Mohamed Taheri-azar lançou seu jipe contra um grupo de estudantes na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, para vingar mortes de muçulmanos no mundo. No ano passado, um homem inspirado pelo EI também investiu contra estudantes na universidade estadual de Ohio e depois os atacou com uma faca. 

Os terroristas domésticos também têm usado também a estratégia. Em setembro, um extremista de direita matou uma mulher em Charlottesville, Virgínia, que protestava contra uma reunião de nacionalistas brancos.

Neste ano, o Departamento de Segurança dos Transportes divulgou um relatório sobre ataques com veículos, alertando que “nenhuma comunidade, pequena ou grande, rural ou urbana, está imune a ações desse tipo por terroristas organizados ou “lobos solitários”. Algumas cidades americanas já adotaram medidas para se proteger contra a ameaça. A Bolsa de Valores de Nova York está resguardada por rampas contra veículos. A cidade também vem pensando em expandir seu programa dos chamados “bollards” barreiras de acesso que bloqueiam o trânsito de veículos pesados. Em Las Vegas, foram gastos US$ 5 milhões para instalar 700 deles; as autoridades justificaram o gasto como “questão de vida ou morte”.

Mesmo assim, é quase impossível impedir um ataque como o ocorrido na terça-feira, especialmente em grandes eventos como a Maratona de Nova York, o Desfile do Dia de Ação de Graças ou da Véspera do Ano Novo na Times Square. “Agora infelizmente está se tornando quase habitual porque é fácil”, disse Charles Strozier, diretor do Center on Terrorism da John Jay College of Criminal Justice, ao USA Today. “Estamos vulneráveis. As sociedades democráticas são abertas e podem ser transpostas.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É jornalista 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.