Park Young-tae/Newsis via AP
Park Young-tae/Newsis via AP

Artigo: Novo presidente sul-coreano é problema para Trump

Moon Jae-in defende diálogo com a Coreia do Norte para tentar frear seu programa nuclear e eleição mostra apoio popular à ideia

David Sanger / The New York Times , O Estado de S.Paulo

10 Maio 2017 | 05h00

A última vez em que um presidente americano decidiu pressionar duramente a Coreia do Norte para o país abandonar seu programa nuclear, amputando seus vínculos com um banco em Macau onde os líderes do governo secretamente depositavam seu dinheiro, a tentativa funcionou de modo brilhante – até o presidente da Coreia do Sul pedir a George W. Bush que parasse.

Isso ocorreu há uma década, quando Moon Jae-in, vitorioso na eleição presidencial de ontem na Coreia do Sul, era um funcionário de alto escalão em Seul e implementava a “política do raio de Sol”, de aproximação com o Norte. Bush respondeu que o governo sul-coreano “perdeu a coragem” e abriu o caminho para a Coreia do Norte se tornar um Estado pequeno, mas possuidor de armas nucleares. A profecia do republicano se confirmou.

O presidente Donald Trump, agora, entra em choque com Moon, que sugere a introdução de uma nova “política do raio de Sol”, contradizendo totalmente a estratégia estabelecida por Trump para levar a cabo sua promessa de “solucionar” o problema nuclear norte-coreano de qualquer maneira.

A estratégia de Trump é pressionar ao máximo o líder norte-coreano, Kim Jong-un, – com cortes financeiros, a instalação de sistemas de defesa antimísseis e a mobilização de navios de guerra na costa norte-coreana, além de acelerar a sabotagem digital do seu programa de mísseis – antes de qualquer medida mais diplomática. Uma estratégia com base na experiência de Trump no campo imobiliário: infligir o máximo de dor, primeiro, e depois ver se o outro quer negociar.

Rex Tillerson, secretário de Estado dos EUA, explicou a abordagem para a equipe do Departamento de Estado como “uma campanha de pressão progressiva. Diria que estamos no estágio cinco ou seis no momento”. O sexto será pressionar as nações do mundo a “implementarem integralmente as resoluções do Conselho de Segurança da ONU com relação às sanções”.

A estratégia de Moon Jae-in é oposta. Ele pretende, primeiramente, estender a mão aos norte-coreanos, na esperança de acalmar as tensões, com a promessa de uma integração econômica. O fato de que essas medidas fracassaram da última vez em que foram tentadas, ele afirmou durante sua campanha, não significa que fracassarão novamente, num momento em que negocia com um jovem líder errático de 33 anos cujo principal interesse é permanecer no poder.

Com a eleição de Moon, Coreia do Sul e China estão agora na mesma posição com relação aos norte-coreanos: fazer o que for necessário para manter o status quo e evitar qualquer situação que resulte em hostilidades, lançando a Ásia oriental no caos e provocando um pânico financeiro. Os chineses, embora prometam adotar sanções mais duras contra o Norte, esperam congelar os programas nucleares e de mísseis de Pyongyang no ponto em que estão, levando a uma nova rodada de negociações que provavelmente durará anos.

Durante a campanha, Moon afirmou que as sanções têm como objetivo trazer os norte-coreanos de volta à mesa de negociações. Para o governo Trump a meta é diferente: forçar o Norte a desistir de todo seu arsenal. Uma diferença importante.

O novo presidente sul-coreano tem muitas razões para tentar reverter a escalada e sua vitória prova que, no momento, sua posição é bem-vista no país. Ele acredita fundamentalmente que a “política do raio de Sol” é a única opção para evitar um novo conflito. Mas a finalidade é também encerrar o boicote dos chineses de alguns produtos sul-coreanos, em retaliação à instalação do sistema antimísseis americano no Sul.

Trump tem pouco tempo para aplanar as arestas, mas não muito. Moon tomará posse hoje. A Coreia do Norte terá então de decidir como vai responder – propondo conversar, lançando um míssil ou realizando um sexto teste nuclear. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA

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