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Artigo: Novo tipo de combate

Os redutos do EI no Iraque e na Síria devem cair, mas o grupo mudará forma de agir

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2017 | 05h00

Na quarta-feira, em Londres, o motorista de um veículo SUV acelera e investe contra pedestres na Ponte de Westminster, não longe do Parlamento britânico e do Big Ben, matando três pessoas e ferindo muitas outras. O homem foi morto pela polícia. 

Nesta quinta-feira, em Antuérpia, na Bélgica, um carro conduzido por um francês é arremessado contra pedestres com o objetivo de matar. Tudo ocorreu como se o atentado cego de Londres se repetisse em Antuérpia, como as réplicas que são sentidas após um terremoto.

O ataque na Ponte de Westminster, em Londres, ocorreu exatamente um ano após três homens se explodirem no aeroporto de Bruxelas, causando a morte de 16 pessoas. Um ano. Foi coincidência?

Seria bom lembrar que os jihadistas do Estado Islâmico conferem uma importância obsessiva às datas, aos aniversários, aos símbolos, como se desejassem fazer de seus massacres infames uma cerimônia solene, um ritual, um ato sagrado que se inscrevem não num “tempo linear” (uma sucessão contínua de eventos que não se repetem e são irreversíveis), este tempo sem memória do profano, mas num “tempo cíclico”, este tempo religioso em que todos os gestos se reproduzem infinitamente sob o olhar de Deus.

O “modus operandi” dos terroristas de Westminster, como o do suposto suicida de Antuérpia, também reproduzem uma outra cena similar e precursora: o massacre no dia 14 de julho, dia da Festa Nacional da França, na cidade de Nice, quando um caminhão foi lançado contra a multidão, matando 85 pessoas.

Neste caso, trata-se simplesmente da aplicação de uma nova técnica de massacre: o assassinato “barato”. Em vez de operações complicadas, preparadas, financiadas e planejadas pelos centros do Estado Islâmico na Síria, geralmente na cidade de Raqqa, são atos praticados por homens solitários, sem preparação nem financiamento, que só exigem um veículo alugado.

Revezes. Sem dúvida, essas novas técnicas rudimentares são motivadas pelos revezes sofridos pelo Estado Islâmico em seus redutos históricos, Síria e Iraque. No Iraque, dois terços de Mossul, capital de facto do “califado” do EI, foram retomados pelo Exército iraquiano, as milícias curdas iraquianas, aviões e soldados de elite americanos. Quando Mossul cair, o grupo terá perdido seu centro de comando, seu cérebro, seu coração e seus músculos.

Na Síria, a cidade de Raqqa também está no olho do furacão. Em breve, um ataque será lançado pelos curdos sírios, apoiados pelos Estados Unidos. E, dentro de alguns meses, todos os centros de comando do Estado Islâmico devem cair. E o mundo será mais belo, a grama mais verde e os céus de um azul mais límpido.

No entanto, não devemos nos iludir. Há muito tempo, os estrategistas da morte e do ódio vêm preparando uma mudança na sua forma de combate. O que ocorreu em Londres, e provavelmente em Antuérpia, é o prenúncio de um novo tipo de combate, certamente tão cruel quanto o que vimos nos dois últimos anos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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