Olivier Douliery/Pool via AP
Olivier Douliery/Pool via AP

Artigo: O baixo nível do reality show

Ninguém venceu o debate marcado por interrupções e por uma discussão cruzada que pouco acrescentou aos 10% dos eleitores indecisos

Rubens Barbosa / Especial para o Estadão , O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2020 | 04h00

Na noite de terça-feira, a sociedade americana assistiu ao mais caótico e desorganizado debate presidencial de sua história. Sem surpresas, o presidente Donald Trump continuou a ser o que ele sempre foi ao longo de seu período na Casa Branca: agressivo, desrespeitoso, mentiroso, com ataques pessoais e sem apresentar planos de governo coerentes para retirar o país da mais grave crise econômica desde a recessão de 29/30.

Trump não respeitou as regras definidas e aceitas pelos dois lados. O moderador, conhecido jornalista da Fox News, que apoia Trump, perdeu o controle do debate e não impediu a discussão cruzada entre os dois candidatos, o que dificultou, em diversos momentos, a compreensão do que estava sendo discutido. Os cerca de 10% dos eleitores ainda indecisos devem ter ficado perplexos com o baixo nível do reality show a que assistiram com acusações e xingamentos pessoais.

Ninguém venceu o debate – que, na verdade, não ocorreu – mas, em vista da maneira como transcorreu, é difícil saber se terá algum tipo de influência sobre os indecisos, pela simples razão de que a discussão expôs de maneira dramática como a sociedade americana está dividida em praticamente todos os principais temas da campanha.

Os temas eram previsíveis: a crise da saúde, efeitos da pandemia, recessão econômica e perda de emprego, racismo, violência, além da nomeação de uma juíza para a Suprema Corte às vésperas da eleição e os detalhes do imposto de renda de Trump.

A eleição de 3 de novembro, no fundo, será um referendo sobre a gestão Trump e as opiniões vão refletir as visões partidárias polarizadas. Somente um fato novo poderá alterar essa percepção. 

Alguns pontos poderiam ser mencionados como emblemáticos dessa divisão: as respostas de Trump evitando críticas aos movimentos de supremacistas brancos e se recusando a solicitar a seus seguidores moderação na apuração dos votos, mantendo as acusações não comprovadas de fraude nos votos enviados pelo correio e a ameaça de judicializar a apuração, levando a questão à Suprema Corte. 

Nos últimos 30 dias da campanha, veremos mais do mesmo, ataques pessoais, fake news, agravamento das tensões sociais e políticas. A exemplo do que ocorre em outros países, a polarização impede um debate racional sobre os principais temas de interesse da população, deixando cada lado entrincheirado em sua lealdade à pessoa do presidente ou do candidato democrata.

Apenas dois países foram mencionados no debate: a China, acusada por Trump de ser responsável pela covid-19, e o Brasil, criticado por Biden pelas políticas ambientais em relação à Amazônia. Os comentários de Biden eram previsíveis, em vista da posição pública da candidata a vice, Kamala Harris, sobre as queimadas na floresta.

O candidato democrata disse que a floresta amazônica está sendo destruída e mais carbono está sendo absorvido nela do que o carbono emitido nos EUA. Afirmou que vai reunir países e assegurar que seja criado um fundo de US$ 20 bilhões, presumivelmente para projetos sustentáveis. O Brasil deve parar de destruir a floresta. “Se não pararem, vocês sofrerão significativas consequências econômicas.”

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O governo brasileiro reagiu dizendo que a declaração foi “lamentável, gratuita e desastrosa” e a soberania brasileira é inegociável. Bolsonaro avaliou que a manifestação de Biden “sinaliza claramente abrir mão de uma convivência cordial e profícua entre os dois países”.

Caso Biden seja eleito, haverá uma mudança radical da política de meio ambiente em relação ao governo Trump, com a volta dos EUA ao Acordo de Paris e a adesão de Washington às preocupações globais sobre mudança de clima e as políticas ambientais. Os EUA acompanharão a Europa no debate sobre o meio ambiente. O Brasil, na defesa de seus interesses econômicos e comerciais, deverá buscar recuperar sua credibilidade e implementar as políticas anunciadas pelo vice-presidente Hamilton Mourão para a Amazônia, com seus resultados sendo verificáveis. 

No exercício de sua soberania, decidirá se participa ou não do fundo mencionado por Biden. Os interesses maiores do Brasil e dos EUA continuarão a prevalecer sobre um aspecto importante, mas setorial, do relacionamento bilateral, e sobre o fim de um alinhamento pessoal entre Bolsonaro e Trump.

EX-EMBAIXADOR BRASILEIRO NOS EUA E PRESIDENTE DO IRICE

 

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