George Frey/Getty Images/AFP
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Artigo: O conto de duas estratégias climáticas

Trump sempre diz que está cansado de ouvir falar sobre os enormes índices do crescimento chinês; ele deveria entender que Pequim está crescendo porque se concentra no futuro

Fareed Zakaria* / Washington Post , O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 05h00

Na semana passada, a primeira página do New York Times informou que o governo Trump revogou o Plano de Energia Limpa, a tentativa da administração Obama de reduzir as emissões de carbono das usinas a carvão. Abaixo do artigo, havia uma reportagem que detalhava o enorme investimento da China em veículos elétricos, parte dos esforços de Pequim para dominar a nova era da tecnologia de energia limpa. É um conto de duas estratégias.

O governo Trump decidiu avançar para um novo século: o 19. O carvão está em declínio há pelo menos sete décadas. Em 1950, representava metade da produção de eletricidade dos EUA; agora, caiu para um terço. Além disso, a maciça automação da mineração significa menos empregos na indústria. Assim como acontece em outras atividades econômicas, máquinas e softwares estão substituindo os mineiros. A demanda por carvão está baixa em razão das alternativas, principalmente gás natural. Nos últimos anos, muitas das principais empresas de carvão americanas foram obrigadas a declarar falência.

Apesar da decisão do governo Trump, é improvável que essas tendências retrocedam. A agência Reuters descobriu que, das 32 empresas de fornecimento de energia que entraram com processos judiciais contra o Plano de Energia Limpa em 26 Estados, “a grande maioria não tem nenhum plano para direcionar seus bilhões de dólares para outra fonte de energia além do carvão”. A razão pela qual outras empresas estão deixando o carvão para trás é econômica – o preço do gás natural caiu nos últimos anos, e sua participação na geração de eletricidade nos EUA quase triplicou desde 1990. E os custos da energia eólica e solar estão caindo rapidamente.

Além disso, o carvão é a energia mais suja ainda em uso. As usinas de energia a carvão são uma das principais fontes de emissão de dióxido de carbono do país, e a maioria dos cientistas concorda que essas emissões acarretam o aquecimento global, e causam uma poluição atmosférica terrível.

Essa é uma das razões que levaram a China – que conta mais de 1 milhão de mortes por ano em razão da má qualidade do ar – a fazer grandes investimentos em energia limpa. O país se tornou um dos principais produtores mundiais de turbinas eólicas e painéis solares, com subsídios governamentais que possibilitam que suas empresas sejam economicamente eficientes e tenham ambições no mercado global. Segundo um relatório da ONU, a China investiu US$ 78,3 bilhões em energia renovável no ano passado – quase o dobro do investido pelos EUA.

Agora, Pequim está investindo em carros elétricos, na esperança de dominar o que acredita que será a indústria de transporte do futuro. E o país já abriu uma grande liderança do setor. Em 2016, foram vendidas duas vezes mais unidades na China do que nos EUA, um feito surpreendente para um país que quase não contava com essas tecnologias dez anos atrás. Tudo isso já se traduziu em empregos, uma “grande jogada”, como diria o presidente Trump: 3,6 milhões de pessoas já estão trabalhando no setor de energia renovável na China. Nos Estados Unidos, são apenas 777 mil.

Donald Trump sempre diz que está cansado de ouvir falar sobre os enormes índices do crescimento chinês. Ele deveria entender que Pequim está crescendo porque se concentra no futuro. Os Estados Unidos sob Trump estão engajados em uma busca inútil e quixotesca para reviver as indústrias do passado. Quem você acha que vai ganhar? / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*É COLUNISTA

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