AFP / FADEL SENNA
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Artigo: O Estado Islâmico não morreu

Mesmo que o grupo seja derrotado militarmente, as condições que facilitaram sua ascensão continuarão a se deteriorar

Antony Blinken / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2017 | 05h00

A libertação de Mossul anunciada no domingo marca uma reviravolta na guerra contra o Estado Islâmico. O grupo não mais controla um território importante no Iraque, onde pode abrigar combatentes estrangeiros e explorar os recursos do petróleo. Mas, embora Donald Trump comemore com razão o fim do califado como o conhecemos, ainda é cedo para nos sentirmos tranquilos, especialmente por falta de uma estratégia para os dias que se seguirem ao fim do EI.

Há 15 anos, no início da invasão do Iraque, durante o governo de George W. Bush, os então senadores Joe Biden e Richard Lugar alertaram: “Quando Saddam Hussein for derrubado, quais serão nossas responsabilidades?”. Uma pergunta que não foi respondida, mas era crucial. Substitua Saddam pelo EI e a questão ainda exige a mesma urgência. 

Mesmo que o grupo seja derrotado militarmente, as condições que facilitaram sua ascensão continuarão a se deteriorar. Como garantir que o EI continue derrotado? O mais urgente, por meio de muitos recursos, estabilizar, proteger, administrar e reconstruir as cidades libertadas para as pessoas retornarem a suas casas.

A boa notícia é que a coalizão liderada pelos EUA levantou os fundos necessários para iniciar esse processo por meio da ONU. No entanto, mais problemático é o que virá em seguida. Cerca de 25 milhões de muçulmanos sunitas que vivem entre Bagdá e Damasco se distanciaram de seus governos. A menos que sejam convencidos de que seu Estado os protegerá e não os perseguirá, um Estado Islâmico 2.0 encontrará ali muitos novos recrutas e seguidores.

O Iraque oferece as melhores perspectivas de sucesso. Mas se deixarmos os iraquianos agirem como quiserem persistirão as mesmas condições que propiciaram a ascensão do EI. E os vizinhos do Iraque se unirão a qualquer seita que os apoiarem, reforçando o entendimento de que o ganho de um significa uma perda para o outro.

Neste ponto tem de entrar a diplomacia americana. Os EUA não podem ditar regras para um Iraque soberano, mas podem apoiar aqueles que querem conduzir o país no caminho certo. E isso deve começar com o apoio ao que o primeiro-ministro Haider al-Abadi chama de federalismo funcional – dando aos iraquianos em nível provincial a responsabilidade e os recursos para a própria segurança.

Esta é a melhor maneira de convencer os sunitas de que seu futuro está dentro do Iraque, não com um novo EI. Os sunitas sempre se opuseram ao federalismo em favor de um governo central. E cada vez mais defendem isso. A Constituição do Iraque contempla a descentralização, mas ela ainda deve ser implementada. Alguns dentro da comunidade xiita, incitados pelo Irã, insistirão num governo majoritário xiita para dominar os sunitas. 

Implantar o federalismo funcional deve começar com a entrada em vigor da lei que regulamenta as milícias conhecidas como Forças de Mobilização Populares (FMP). Essas unidades xiitas têm de ficar sob controle estatal, longe da política e distantes das áreas sunitas. As milícias, criadas contra o EI, têm de permanecer na folha de pagamento do Estado e assumir a segurança do território.

Ao mesmo tempo, Trump deveria usar as boas relações com os vizinhos sunitas do Iraque para pressioná-los a colaborar mais para a integração regional, tentando moderar as ambições dos sunitas. O seu apoio a todas as demandas sunitas alimentaria o sectarismo, que dá mais força ao Irã e pode destroçar o Iraque.

As ambições curdas também são um desafio à estabilidade do Iraque. O líder curdo Massoud Barzani convocou um referendo sobre a independência em setembro. Os curdos aproveitaram a luta contra o EI para assumir o controle de 70% dos territórios ao norte do Iraque. A independência curda é um sonho e para Barzani sua realização está no centro do seu legado.

Mas ir muito rápido pode despertar a ira de Bagdá e dos sunitas, sem falar na Turquia e no Irã. Se o preço do petróleo continuar baixo, os curdos terão dificuldade para se tornarem autossuficientes. Também nesse caso, os EUA podem retomar seu papel de intermediador e fechar um acordo que desse aos curdos maior controle do petróleo, mantendo as tropas federais fora e negociando um pacto de responsabilidade conjunta pela cidade de Kirkuk. 

Uma questão final: deveria ser mantida uma presença militar americana no Iraque para garantir que o EI não se levante novamente? A saída dos EUA, no final de 2011, refletia a realidade na época, ou seja, que muitos iraquianos queriam ver os americanos longe.

Hoje, com o Iraque acordando do pesadelo do EI, os iraquianos talvez desejem manter os americanos por perto. Como Trump caminhará nesse campo minado será um teste crucial da sua estratégia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

DIRETOR DO PENN BIDEN CENTER FOR DIPLOMACY AND GLOBAL ENGAGEMENT 

 

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