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Artigo: O holandês populista

Geert Wilders faz parte de uma guinada na direção de valores contrários ao espírito europeu

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2017 | 05h00

No mapa da Europa, um país está em alerta máximo. Trata-se da Holanda, ou Países Baixos, um pequeno país colado ao norte da Bélgica. Por tradição, a Holanda é um Estado bem organizado, com um povo sábio, muito trabalhador e de boa saúde. Hoje, porém, toda a Europa olha para Amsterdã e Roterdã com um pouco de apreensão. A eleição holandesa é auscultada como se pudesse representar, com algum tempo de antecedência, um transtorno que poderá se reproduzir mais tarde em vários outros países europeus.

Duas razões explicam esse interesse, as duas ligadas a uma questão grave colocada em toda a Europa: as relações do Ocidente com a religião muçulmana. Primeiro problema: a Holanda se encontra na linha de frente no “braço de ferro” que opõe a Turquia, de Rece, à Europa, e, em especial, aos alemães e holandeses. 

Erdogan, presidente extremamente autoritário da Turquia, quer aumentar ainda mais seus poderes e, para isso, convocou um referendo. Para preparar essa votação, ele planejou enviar ministros aos países europeus com grandes comunidades de imigrantes turcos para pregar a boa palavra em favor dele próprio. A Alemanha, a Holanda e outros não deram permissão para os ministros turcos se entregarem a suas pregações. E Erdogan vociferou, então, que esses países, sobretudo a Holanda, eram “nazistas”.

Esse incidente tornou-se particularmente incômodo porque hoje haverá a votação na Holanda com a possibilidade de um partido “populista” francamente antimuçulmano, o PVV, de Geert Wilders, obter um bom resultado.

Wilders não passa despercebido. Pessoa de grande estatura, elegante, ele tratou seus cabelos castanhos para formarem uma espécie de capacete de um louro quase branco. Rosto estranho, com olhos levemente amendoados, como se para dar crédito a sua biografia que lhe concede uma avó indonésia – provavelmente imaginária.

Ele fala pouco, mas é sempre para vomitar um ódio visceral aos árabes. É bom que se diga que a Holanda engendra naturalmente essas histerias. No início dos anos 2000, ela seguia um homem temível, um “libertário”, Pim Fortuyn, cuja tese era que os árabes “atrasados” colocavam em risco o modelo holandês.

Fortuyn foi assassinado em 2002, mas a chama do delírio antimuçulmano foi retomada por um cineasta, Theo Van Gogh, que foi por sua vez assassinado em 2004. Ao mesmo tempo, uma “fatwa” (decreto islâmico) foi lançada contra Geert Wilders, que, por conta disso, recebe proteção policial permanente. As fatwas sobre Wilders se multiplicaram. Elas pedem que ele seja decapitado. Mais tarde, um de seus irmãos acusou a chanceler alemã, Angela Merkel, de ter as mãos sujas de sangue por ter acolhido refugiados sírios.

Em 2006, Wilders voltou à cena com a criação de seu partido, o PVV. O que diz esse partido? Que o Islã é uma religião satânica, que o Alcorão vale o mesmo que o Mein Kampf, de Adolf Hitler, que todas as mesquitas deveriam ser fechadas, que é preciso sair da União Europeia, porque ela é uma “organização nazista”.

Bizarramente, percebe-se que o delírio antimuçulmano do candidato holandês reproduz o delírio pró-muçulmano do presidente turco Erdogan. Ambos chegam à mesma conclusão: a de que a Holanda é um “país nazista”.

O fato de a onda antimuçulmana e populista atingir um país europeu é inquietante. Mas o que torna esse perigo realmente assustador é que a ascensão de Wilders se inscreve numa deriva geral do Ocidente para valores que negam o espírito da Europa: a violência, o ódio, o muro, os arames farpados, as fortalezas.

Em julho de 2016, Wilders estava em Cleveland, nos Estados Unidos, durante a Convenção Republicana, onde Donald Trump preparava seu triunfo. E o holandês repetia nos jornais da Europa: “Se eu fosse americano, votaria em Donald Trump. Na América, como na Europa, as pessoas se sentem abandonadas por seus líderes. Elas têm sede de mudança. Elas não querem mais fronteiras abertas.”

E Wilders pôs-se a sonhar em voz alta: “Sim, Trump pode ser eleito. E depois, eu serei primeiro-ministro dos Países Baixos e, em seguida, na França, Marine Le Pen se tornará presidente.”

Lindo programinha. A eleição de Trump cumpriu a profecia de Wilders. Nesta semana, a Holanda e nós saberemos se sua visão foi correta. E, depois disso, as eleições francesas e Marine Le Pen? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

 

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