REUTERS/Christian Hartmann
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Artigo: O jornalismo profissional em tempos de emergência

O jornalismo é o melhor antídoto contra desinformação que, deliberadamente, gera movimentos interessados no desequilíbrio das instituições

Fernando de Yarza López-Madraz*, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 05h00

Em poucas semanas, o mundo mergulhou em um pesadelo. A primeira pandemia global em mais de 100 anos causou uma psicose coletiva. Nossos entes queridos adoecem e morrem. Memórias de encontros com amigos e familiares permanecem longe. O confinamento multiplica a ansiedade, em uma situação que parece não ter fim.

A progressão do vírus será contida com pesquisa, consciência social e medidas de prevenção e isolamento. E teremos de superar o medo, que atravessa portas e fronteiras a uma velocidade assustadora. Superar tudo isso exigirá um esforço coletivo no qual o papel da mídia será essencial. Somente fornecendo informações úteis e verdadeiras, de forma abrangente, rápida, precisa e comprometida com os cidadãos, conseguiremos conter o medo do contato social e voltar à normalidade.

O jornalismo é o melhor antídoto contra desinformação que, deliberadamente, gera movimentos interessados no desequilíbrio das instituições. É um interesse que se multiplica tão rapidamente quanto o coronavírus, criando uma situação confusa, prejudicial para todos nós que estamos sofrendo. Nestas circunstâncias, nossa responsabilidade como editores e jornalistas é mais importante do que nunca, certamente, nosso maior desafio desde a 2.ª Guerra. 

Cidadãos de todos os países têm agora não apenas o direito, mas a necessidade de nosso trabalho. É verdade que estamos diante de uma nova contingência e, portanto, desconhecida para todos, menos para a mídia, que demonstra historicamente que sabe como lidar com esse desafio: quanto mais complicada a situação, mais evidente é a nossa capacidade de reagir, realizando nosso trabalho com mais esforço, dedicação, seriedade e eficiência.

Jornalistas e editores são, antes de tudo, um serviço público de primeira necessidade, o mesmo que médicos, enfermeiras, fabricantes de equipamentos médicos, policiais, soldados, entregadores. Estamos na linha de frente desse combate, mesmo ao custo de nossa saúde, cientes de que temos o dever de garantir o direito de os cidadãos conhecerem a verdade, nada mais do que isso – a verdade sobre o que acontece. 

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Nunca antes nosso papel foi tão importante na coesão social, na defesa do sistema democrático, no estímulo à solidariedade e à conscientização do cidadão. Nossa ânsia de fazer o melhor jornalismo nunca foi tão grande como agora. Nosso compromisso com a verdade nunca foi tão louvável, uma missão social e ética intrínseca à nossa atividade.

E, apesar de tudo, nunca tivemos mais dificuldades do que agora. A grande maioria dos nossos jornais e meios de comunicação não é pública, mas de natureza privada. Somos empresas que precisam de recursos para realizar nosso trabalho e prestar nosso serviço à sociedade. O terremoto da internet e a crise econômica mundial, iniciada em 2008, significaram para a imprensa livre e democrática um duro golpe e um desafio sem precedentes. Muitos não sobreviveram. Outros, conseguiram empreender uma difícil transformação profissional e estrutural para se adaptar às necessidades de uma sociedade em mudança em seus valores, mas principalmente em sua tecnologia. 

Após anos de sacrifícios, estávamos tendo sucesso, com enormes dificuldades, mas vendo a luz no fim do túnel. Então, chegamos a esta nova etapa, de repente, com a virulência e rapidez de um relâmpago. E há um paradoxo perverso. O jornalismo se torna mais necessário do que nunca, o público se multiplica, mas nossos meios de subsistência evaporam em dias, e com eles nossa forma de sobrevivência. A publicidade praticamente desapareceu. Comprar jornais está ficando mais complicado. A desaceleração econômica nos afetou de maneira brutal. Exatamente agora, quando somos obrigados, mais do que nunca, temos menos do que nunca.

 

Prestamos um serviço essencial em circunstâncias excepcionais. Não podemos parar nossa atividade. Não podemos fechar ou tirar algumas semanas de férias até que tudo isso passe, porque isso seria trair a sociedade que agora precisa de nós. Mas temos de encontrar uma solução para nossos problemas. Precisamos de financiamento de curto prazo, de liquidez, de uma ponte que nos permita chegar ao outro lado do rio sem nos afogarmos na tentativa. Agora, temos de ver na prática o compromisso com a liberdade de expressão e o direito à informação de autoridades e governos. Se eles realmente acreditam que a mídia, que mantêm apenas na Espanha 36 mil empregos diretos e 160 mil indiretos, não são apenas necessários, mas indispensáveis para manter a serenidade em uma sociedade assustada. 

Estamos fazendo o sacrifício, o esforço e assumindo a responsabilidade. Ninguém deve se confundir: a mídia é um pilar essencial da convivência democrática, com nossos erros e com nossos fracassos. Uma sociedade sem meios solventes nunca poderá ser uma sociedade livre e, nela, a coexistência será seriamente ameaçada. Não estamos falando de lucros e demonstrações de resultado. Agora, isso não importa. 

Falamos de permanecermos vivos para continuar nosso compromisso de apoiar os cidadãos, sua dignidade, a coesão social, a manutenção da democracia. Falamos sobre continuar fazendo o bom jornalismo, apesar das circunstâncias, para continuar nosso trabalho, mesmo à custa do sacrifício exigido de todos neste terrível transe. Estamos falando em a mídia continuar com seu compromisso em defesa da liberdade e do futuro democrático.

* É PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE JORNAIS E EDITORES (WAN-IFRA)

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