OLIVIER TOURON / AFP
OLIVIER TOURON / AFP

Artigo: O que os eleitores tentam nos dizer

Recado das urnas aos dois partidos aponta para a necessidade de convivência com o outro lado para se obter ganhos comuns

David Brooks, The New York Times

07 de novembro de 2020 | 05h00

É, eu também ansiava por um repúdio expressivo. Queria que Donald Trump fosse esmagado por uma diferença de mais de 10 pontos. Mas as eleições são acontecimentos que nos ensinam muito. Os eleitores nem sempre demonstram sabedoria, mas, em geral, conseguimos compreendê-los. Sabem mais a respeito das próprias vidas do que nós, em nossas bolhas de informação, e quase sempre nos dizem algo importante.

A primeira coisa que escutamos da maioria dos americanos – já que a vitória de Joe Biden no voto popular parece praticamente garantida – é que Trump é inaceitável. Vivemos em um país dividido, de posições antagônicas, mas o número de evangélicos que votou nos democratas em 2020 foi muito maior do que em 2016. Muitos votaram contrariando suas preferências partidárias para tirar do poder um homem visto como ameaça única aos alicerces desse país. Não se trata de um feito trivial.

O segundo recado dos eleitores é o seguinte: separem igreja e Estado. Faz tempo que temos uma polarização política nesse país e esse quadro não deve mudar. Mas, nos anos mais recentes, essa polarização se transformou em algo pior: uma guerra religiosa.

Trumpismo e “lacração” não são fenômenos equivalentes, mas, para seus discípulos, funcionam como religiões seculares. Oferecem uma lógica binária de bem e mal, uma experiência digna de participação em um culto, visões apocalípticas ou utópicas, julgamentos de bruxas para excomungar os impuros e o sentido de missão pessoal que deriva do envolvimento em uma guerra santa.

De maneiras diferentes, os eleitores disseram aos dois partidos que preferem uma política voltada para questões práticas. Quem quiser uma guerra religiosa deve procurá-la em outro lugar.

Eles disseram aos republicanos, por exemplo, que o partido será muito mais forte sem a maluquice do MAGA (“make America great again”). O Partido Republicano teve uma eleição muito melhor que Trump. Com Trump perdendo, os republicanos conquistaram até o momento mais seis assentos na Câmara. Os democratas ainda não conseguiram reverter uma única maioria nas legislaturas estaduais, significando que os republicanos vão traçar as fronteiras distritais para os próximos 10 anos de eleições.

A imagem de um futuro possível para o Partido Republicano veio à tona: um partido multirracial da classe trabalhadora. Os republicanos obtiveram avanços surpreendentes entre os latinos, negros e muçulmanos. Trump ficou com a maior parcela de votos do eleitorado não branco já vista para um candidato republicano em 60 anos. Isso não foi resultado das provocações racistas do trumpismo, e sim da reputação do partido de defensor da iniciativa e da responsabilidade individuais, e de reforçar os pequenos negócios e o crescimento econômico. Trata-se de um ponto de partida que pode ser aproveitado.

Enquanto isso, os eleitores disseram aos democratas que eles também seriam beneficiados se falassem mais de políticas públicas e menos das preocupações culturais da sua ala idealista, que vive em Portland, faz pós-graduação e defende a redução do financiamento aos departamentos policiais.

Se os democratas sonhavam com a oportunidade de vencer uma eleição com imensa vantagem, eles acabam de tê-la, contra um candidato imoral de uma incompetência criminosa. Mas os democratas não conseguiram o resultado desejado.

Isso não ocorreu por causa das políticas defendidas por eles. As principais propostas de Biden são extremamente populares. O problema é que eles construíram uma muralha cultural azul que mantém afastada a outra metade do país, independentemente das circunstâncias.

Isso ocorreu porque eles contam um tipo determinado de história. Os progressistas costumam dizer que a política americana é o avanço histórico da homogeneidade em direção à diversidade. Eles enxergam os EUA divididos entre cosmopolitas iluminados (democratas) que recebem de braços abertos o diverso mundo pós-industrial e os trogloditas racistas (republicanos) que o rechaçam.

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O primeiro problema dessa narrativa é que ela é constantemente surpreendida pelos acontecimentos. A cada eleição, a maioria democrata emergente deixa de se materializar. O segundo problema é que isso simplifica os diferentes processos em andamento nos EUA. De alguma forma, precisamos fazer um acerto de contas racial, algo essencial, ao mesmo tempo em que compreendemos as outras macronarrativas que as pessoas enxergam para suas vidas. Em terceiro, trata-se de um discurso incrivelmente esnobe, vaidoso e brochante.

Os eleitores nos entregam um sistema político que provavelmente será liderado por Joe Biden, Nancy Pelosi e Mitch McConnell. Não se trata de guerreiros culturais, e sim políticos e legisladores.

Temos agora dois partidos cuja melhor versão de si mesmos é enquanto representantes da classe trabalhadora. Talvez os próximos anos possam trazer uma disputa partidária para mostrar aos americanos sem ensino superior quem os representa melhor.

Um governo dividido rumaria para o impasse? Talvez. McConnell fará o que for melhor para os interesses republicanos em 2022. Mas não tenho certeza desse prognóstico. Os EUA vivem uma divisão amarga em torno de temas culturais, mas a divisão em relação às políticas econômicas está diminuindo. O populismo enfraqueceu a ala do Partido Republicano que defende o Estado mínimo e abriu senadores como Marco Rubio, Josh Hawley, Tom Cotton e outros a ideias que pedem mais envolvimento federal na indústria. Para alguns isso inclui o treinamento dos trabalhadores; para outros, um banco voltado para projetos de infraestrutura, subsídios salariais ou política de pesquisa e desenvolvimento industrial.

Os eleitores nos lembraram novamente que o outro lado não vai desaparecer. Temos que esquecer a fantasia segundo a qual após a próxima eleição milagrosa, nosso lado subitamente conseguirá tudo que deseja. Temos que conviver uns com os outros.

A chave é se afastar da guerra cultural que tomou conta da nossa política e do nosso governo. Nossas diferenças morais devem ser brandidas com livros, sermões, filmes e passeatas, mas não com a coerção política. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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