Rebecca Cook/Reuters
Rebecca Cook/Reuters

Artigo: O trumpismo vai continuar a assombrar

Trump perderá o cargo, mas manterá a liderança do movimento que criou e afetará o governo Biden e o próprio Partido Republicano

Carlos Poggio* / Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 05h00

Donald Trump é apenas o 4.º presidente dos Estados Unidos nos últimos 100 anos a não conseguir se reeleger. Há, porém, um fator crucial que diferencia o magnata nova-iorquino de seus antecessores derrotados nas urnas. Ao contrário de Herbert Hoover, Jimmy Carter e George Bush pai, Trump não é um homem de partido, mas o líder de um movimento. 

Hoover, Carter e Bush eram indivíduos oriundos de suas respectivas máquinas partidárias e a elas retornaram de forma mais ou menos discreta no pós-presidência. Trump é um outsider, cujo movimento que criou – o trumpismo – capturou o Partido Republicano em 2016, contra a vontade da elite do partido que, para Trump, é apenas um veículo para seu movimento.

O atual ocupante da Casa Branca já havia deixado isso muito claro quando foi o único candidato republicano a responder que não descartaria a possibilidade de concorrer como independente durante as primárias do partido em 2016. 

Os Estados Unidos estão apenas começando a experimentar as consequências de algo que na América do Sul conhecemos muito bem: a ascensão de um movimento populista de caráter fortemente personalista que perpassa lealdades partidárias. Evidentemente, há inúmeras diferenças entre o trumpismo, o varguismo e o peronismo, por exemplo, dado que cada um desses movimentos tem suas especificidades e correspondem a contextos distintos. 

Não nos cabe aqui explorar as diferenças entre populismo de esquerda e de direita, moderado e radical, mas é notável o fato de que, no século 21, estudiosos sobre o tema do populismo tenham de incluir uma seção sobre Estados Unidos. De fato, o populismo era algo tão distante da realidade americana que até hoje a literatura sobre o tema é dominada por autores europeus e latino-americanos, muito mais acostumados ao fenômeno. 

É verdade que o impulso populista não é completamente ausente da realidade americana. Já no fim do século 18, por exemplo, fazendeiros do sul agrário fundaram o “Partido do Povo”. Mas jamais um movimento populista chegou ao coração do poder nos Estados Unidos. 

Nunca houve um líder que incorporasse de tal forma o aspecto personalista do populismo que justificasse a inclusão do sufixo -ismo ao seu sobrenome. Não há um rooseveltismo ou um bushismo nos Estados Unidos. Há agora um trumpismo, cuja presença altera profundamente a forma que devemos analisar a atual realidade política nos Estados Unidos. 

Não devemos esperar que Donald Trump faça como seus antecessores, funde uma biblioteca com o seu nome, e adote um perfil discreto encastelado na Trump Tower. Trump perderá o cargo, mas manterá a liderança do movimento que criou, sempre a poucos caracteres de distância no Twitter. O trumpismo continuará com ou sem Trump na Casa Branca e vai assombrar não apenas a administração Biden, mas também o Partido Republicano pelos próximos anos.

*É PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA FAAP

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