Gil COHEN-MAGEN / AFP
Gil COHEN-MAGEN / AFP

Artigo: O velho normal

Por mais que a Bíblia seja fundamental para um número enorme de brasileiros, existe um outro livro que nos define como País e nele, entre outras coisas, está escrito que pactos devem ser cumpridos

Guilherme Casarões*, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2019 | 10h00

Eduardo Bolsonaro voltou às manchetes internacionais. Na inauguração do escritório da Apex-Brasil em Jerusalém, o ex-quase-embaixador prometeu que o Brasil reconhecerá a cidade como a capital de Israel. "Vamos fazer o que é normal", disse, após citar a Bíblia e o maciço apoio de evangélicos na eleição de seu pai à presidência.

Já está claro que a política externa é um dos elementos centrais da chamada "Nova Era". Isso se dá menos por razões econômicas ou geopolíticas, como em governos passados, mas porque ela é vista como ponta de lança da guerra cultural travada pelos ideólogos bolsonaristas.

A defesa da Nação, de Deus e da família também se dá no exterior, como vimos nos recentes votos do Brasil nas Nações Unidas contra discussões sobre gênero e direitos reprodutivos da mulher, ou na curiosa proposta brasileira de transformar a identidade nacional em direito humano fundamental.

É compreensível que o País manifeste as posições do governo de turno no tabuleiro internacional. A política externa, afinal, é uma política pública executada por quem tem mandato. Ela expressa valores, ideias e convicções dos que estão no poder, mesmo que por vezes eles sejam controversos ou imprudentes.

Mas a política externa tem uma particularidade. Parafraseando Celso Lafer, ela se faz no cruzamento entre necessidades internas e possibilidades externas. Lá fora, tudo o que o Brasil faz traz consequências para duas centenas de países, além de incontáveis atores transnacionais, de investidores privados a grupos extremistas.

Além disso, algumas coisas esbarram no limite do Direito Internacional. Hoje, a ONU serve como o Parlamento em que as nações, em conjunto, decidem sobre as regras que ditam sua boa convivência. E a maior dessas regras é a de que os pactos acordados devem ser cumpridos.

Ao retomar a promessa de campanha de Jair Bolsonaro sobre transferir a embaixada para Jerusalém, provavelmente por pressão de setores evangélicos e do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, cujo governo está em crise, Eduardo coloca em risco o próprio compromisso brasileiro com o Direito Internacional.

No caso, não se trata de escolha ou gosto. Espera-se que todo membro da ONU cumpra certas resoluções, como aquelas que determinam que o status de Jerusalém somente será definido após as negociações de paz com os palestinos.

Alguns países são poderosos o bastante para ignorar as decisões multilaterais. Outros não se importam com os custos políticos de serem voto vencido. Na paranoia que tomou conta da diplomacia brasileira, para quem o mundo se reduz a uma conspiração globalista-marxista, seria até bom nos livrarmos dessa suposta tirania das Nações Unidas.

Mas respeitar as leis internacionais não depende da opinião, ou da fé, de alguns membros do governo. Por mais que a Bíblia seja fundamental para um número enorme de brasileiros, existe um outro livro que nos define como País. Nele, entre outras coisas, está escrito que os pactos devem ser cumpridos. É esse o "normal" pelo qual Eduardo Bolsonaro deveria zelar.

*Guilherme Casarões é cientista político e professor da FGV-EAESP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.