Nathan Howard/Getty Images/AFP
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Artigo: Obrigado aos radicais

Os radicais conseguiram abrir os nossos olhos para problemas sociais e expandir o campo do que se pode dizer

David Brooks / The New York Times , O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 04h30

Não sou fã dos radicais, mas sou grato a eles. Os radicais que nos trouxeram o movimento “Ocupe Wall Street”, enquanto a campanha de Bernie Sanders deu ao problema da desigualdade um destaque que não receberia sem eles.

Os fundadores do movimento “Vidas Negras Importam” elevaram a injustiça racial ao topo do debate nacional. Os populistas radicais que produziram Donald Trump mostraram quanta alienação existe no Centro-Oeste dos EUA. Os radicais conseguiram abrir os nossos olhos para problemas sociais e expandir o campo do que se pode dizer.

Mas se olharmos para quem realmente liderou as mudanças na história americana, veremos que não foram os radicais. Nos anos 1770, o agitador Samuel Adams deu lugar para John Adams, mais moderado (sem falar em George Washington, James Madison e Alexander Hamilton). Em meados do século 19, radicais como John Brown e puristas como Horace Greeley deixaram o lugar a Abraham Lincoln, mais favorável ao gradualismo. Na era progressista, radicais e anarquistas que deram início ao movimento trabalhista nos anos 1889 cederam o lugar a Theodore Roosevelt.

Os radicais não sabem muito bem produzir a mudança, mas sabem estimular a cultura; eles não têm estratégias práticas para a aprovação de leis quando é necessário o apoio de 50% mais um. Eles também costumam dividir o mundo entre bons e maus. 

As pessoas que vêm em sua esteira, e na realidade são as que produzem a mudança, são os radicais conservadores. Eles acreditam em muitos objetivos dos radicais, mas sabem como trabalhar no interior do sistema democrático para alcançá-los.

Os radicais conservadores, como Hamilton, Lincoln e Roosevelt, começam com disposições moderadas. Reverenciam a sabedoria coletiva do passado. Eles têm consciência de que a aparência da civilização é muito superficial. E que se nos limitamos a quebrar coisas, chegaremos ao niilismo, não ao progresso. São pragmáticos, experimentadores, liberais.

Mas também compreendem que nos momentos de transição histórica, é sensato ousar. Eles compreendem que quando a sociedade está ruindo, a única maneira de restaurar a estabilidade é tratar dos problemas que a destroem.

Quando produzem grande mudança – a Revolução Americana, golpeando as verdades – estes radicais conservadores canalizam o impulso revolucionário na ação reformista. Lincoln teve de convencer toda uma nação da abolição da escravatura. 

Hoje, os EUA se encontram em meio a outra transição histórica com necessária mudança drástica. As crises que dividem a sociedade americana são conhecidas: a desigualdade econômica, a injustiça racial, a dissolução das famílias e comunidades, uma crise de legitimidade.

Para alguns, este parece ser um momento revolucionário. Em “Commentary”, por exemplo, Abe Greenwald afirma que os radicais tomaram o controle. São eles que conduzem os programas radicais (Nada de polícia! Nada de aluguel!). Pior ainda, eles minam os fundamentos liberais da democracia americana.

Muitos sentem no radicalismo de hoje o sopro das revoluções do passado: a brutalidade da Revolução Francesa, a perversa postura policial da Revolução Cultural de Mao, a luta aberta pelo poder da revolução soviética de Lenin.

Não estou alarmado. Estou convencido de que as forças que levaram Joe Biden à indicação são muito mais poderosas do que os poucos extremistas de Portland e até mesmo dos esquerdistas iliberais da universidade. Tenho a esperança de que, se receberem o poder, Biden, Kamala Harris, Nancy Pelosi e Chuck Schumer forjarão um novo radicalismo conservador.

Eles viveram toda vida no sistema liberal, conhecem a política, as vantagens e os perigos do radicalismo. Estão conseguindo o apoio de uma parcela espantosamente ampla do espectro ideológico.

Em crises como essas, cada um precisa assumir posição, ter clareza quanto às causas que defendemos e à posição que ocupamos no panorama político. É difícil, porque estamos em um período de fluxo.

Se as nossas visões não mudaram nos últimos quatro tumultuados anos, provavelmente não estamos tendo ideias novas. Mudei para a “esquerda” em discussão de raça, esquerda na economia e um pouco para “direita” em termos de comunidade, família e questões sociais.

O filósofo Isaiah Berlin disse certa vez que ele se colocava à “margem da extrema direita do movimento de esquerda”. Se isso era bom para Isaiah Berlin, também é bom para mim. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA*

 

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