REUTERS/Kevin Lamarque
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Artigo: Os EUA desperdiçam seu poder

O país está no topo do mundo no momento, mas há forças corroendo essa posição elevada

Fareed Zakaria, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2019 | 05h00

Esta semana, assistimos a um espetáculo inusitado. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, país que é um dos mais próximos aliados dos EUA, foi a Teerã e anunciou que um sistema de pagamentos europeu criado como alternativa ao americano será inaugurado em breve. Essa visita foi feita em coordenação com Reino Unido e França, que ajudaram a criar o novo mecanismo de pagamentos chamado Instex.

O sistema, provavelmente, fracassará ou se mostrará inteiramente inadequado no curto prazo. O predomínio do dólar nas transações globais – o que beneficia enormemente os EUA – será difícil de ser substituído, mas o Instex é um sinal de alerta. Os mais estreitos aliados dos EUA estão trabalhando exaustivamente para enfraquecer gradualmente o suporte do poder global americano.

E qual a razão? É simples: o abuso de poder do governo de Donald Trump. Os EUA estão no topo do mundo no momento, mas há forças corroendo essa posição elevada. Algumas dessas forças são as profundas mudanças estruturais que vêm ocorrendo, como ascensão da China. Mas, como destaca a revista britânica The Economist, outras são reações ao abuso dessa hegemonia.

Consideremos a causa que desencadeou essa busca de uma alternativa ao dólar. Reino Unido, França e Alemanha são países signatários do acordo nuclear firmado com o Irã em 2015.

Quando o governo Trump unilateralmente se retirou do pacto, no ano passado – apesar de Teerã o ter respeitado –, os EUA restabeleceram as sanções, usando o poder do dólar para impedir que outros países continuassem a realizar negócios com o Irã (uma vez que muitas transações internacionais adotam o dólar por conveniência). Furiosos com o abuso de autoridade, os europeus decidiram criar um novo sistema de pagamentos.

Eles não são os únicos. Chineses, russos e indianos também vêm tentando criar mecanismos que lhes permita escapar da hegemonia do dólar. Até agora, esses esforços têm sido ineficazes. Mas, se tantas nações importantes comercialmente, incluindo as europeias, decidirem subverter o dólar, no fim haverá impacto. Antes, a libra inglesa era a moeda internacional dominante, mas foi suplantada pelo dólar. Não existe nenhuma lei de ferro que diga que o dólar reinará para sempre.

Observe a maneira pela qual Trump vem usando a ameaça das tarifas. Em muitos casos, o governo americano invocou preocupações de “segurança nacional”. A lei que autoriza o presidente a estabelecer essas tarifas foi aprovada durante a Guerra Fria, de modo a permitir ao país preservar setores cruciais que poderiam ser necessários para sustentar uma disputa geopolítica com a União Soviética. 

O alumínio canadense e os SUVs fabricados no Japão não se enquadram na lei, embora Trump pense o contrário. Como Jennifer Hillman, ex-procuradora do Escritório do Representante do Comércio dos EUA, escreveu no New York Times, “se os EUA justificam a imposição de tarifas sobre carros qualificando-os como ameaça à segurança nacional, então todos os países do mundo podem justificar a adoção de restrições sobre qualquer produto usando alegação similar”.

Os EUA têm queixas legítimas com relação às práticas comerciais da China. Pequim, com frequência, seguirá os termos da lei, mas encontrará maneiras inteligentes para debilitar seu espírito por meio de lacunas e exceções. Mas isso é exatamente o que o governo americano vem fazendo. 

Ao utilizar erroneamente a isenção da segurança nacional, o governo está fragilizando as regras comerciais e as leis internacionais que ele exige que a China respeite. Se eu fosse um negociador chinês simplesmente explicaria que seguirei as regras comerciais do mesmo modo que Trump segue.

Analisemos também os esforços de Trump para esmagar a gigantesca companhia chinesa Huawei. Até agora, poucos países seguiram a proibição americana, mas quase todos estão certamente notando que, se continuarem dependentes das tecnologias americanas, que são cruciais, Washington repentinamente poderá paralisá-los por simples capricho. O resultado é um desejo maior de independência tecnológica e de um afastamento das companhias americanas.

Os EUA ainda ocupam uma posição excepcional no mundo. Mas claramente estamos entrando em uma era em que novos atores terão mais poder. Há 20 anos, a China representava 3% do PIB global. Hoje, sua cota é de 15% e vem aumentando. Como escrevi em meu artigo na edição atual da Foreign Affairs, “a regra para estender a hegemonia liberal é simples: seja mais liberal e menos hegemônico”.

Trump, ao que parece, está decidido a fazer o oposto. O governo americano vem agindo para obter alguns ganhos de curto prazo em transações limitadas com outros países. No entanto, ao abusar do seu poder, coloca em risco a estrutura do sistema internacional na qual o poder americano está profundamente enraizado. É um mau negócio pelo qual todos os americanos pagarão um preço nas próximas décadas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA 

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