Artigo: Os refugiados estão aqui, gostem ou não

Apesar da histeria na Europa e nos EUA, os que realmente arcam com o peso da crise migratória estão no Oriente Médio e na África

ISHAAN THAROOR* / THE WASHINGTON POST, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 05h00

Os refugiados são objeto de discursos políticos exagerados e oportunistas em grande parte do Ocidente. Campanhas eleitorais se baseiam na ameaça terrível que eles representariam. Políticos e interlocutores de direita os demonizam como estupradores e criminosos. Outros ridicularizam sua fuga das zonas de guerra como falta de coragem. Alguns chegam a ir à TV e inventar massacres cometidos por refugiados que nunca se verificaram. O que se esquece nesta implacável politização da crise dos refugiados são as reais atribulações que eles sofrem.

De acordo com a agência da ONU para refugiados, 65,3 milhões de indivíduos foram forçados a abandonar suas casas, dos quais 21,3 milhões estão registrados como refugiados. E o mais importante, mais da metade tem menos de 18 anos e vem de apenas três países: Síria, Somália e Afeganistão. A maioria não vive nem está prestes a viajar para o Ocidente.

Apesar da histeria na Europa e nos EUA, aqueles que realmente arcam com o peso da crise estão no Oriente Médio e na África. Governos e organizações humanitárias nessas regiões estão sobrecarregados e sob pressão. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) informa que cerca de 1,2 milhão de pessoas terão de ser realocadas em 2017, em razão das condições a que estão submetidas ou de necessidades familiares. Os EUA, que aceitaram mais refugiados do que qualquer outro país, receberão uma minúscula fração. Desde a eclosão da guerra da Síria, em 2011, 5,5 milhões de sírios fugiram do país. Os EUA receberam menos de 20 mil desse total.

Trump pretende suspender a acolhida de sírios por tempo indefinido. A medida aterroriza defensores de direitos humanos. “Realocar significa receber refugiados de locais como o Líbano, onde eles já são refugiados, selecionar os mais vulneráveis e levá-los para outros lugares”, disse Filippo Grandi, diretor do Acnur. “Se esse programa for reduzido, será uma diminuição perigosa da solidariedade internacional. Há pessoas que fogem do perigo. Elas não são perigosas.”

Trump e a extrema direita do outro lado do Atlântico afirmam que não há como investigar adequadamente os refugiados e apontam para lapsos de segurança anteriores para justificar as proibições. As fronteiras abertas dentro da União Europeia e a medíocre coordenação entre os governos nacionais permitiram que jihadistas se infiltrassem no êxodo de refugiados. Mas, no caso dos EUA, não é verdade que estruturas mais rígidas ainda não tenham sido instaladas.

“Este é um teste para o mundo ocidental, não apenas para os EUA”, disse David Miliband, ex-chanceler britânico. Se é um teste, o Ocidente está sendo reprovado. Cerca de 370 mil refugiados e imigrantes chegaram à Europa em 2016, a maioria pelo mar. Quase 5 mil morreram na travessia. Muitos sobreviventes aguardam o pedido de asilo, mas milhares estão detidos em campos improvisados nos Bálcãs, depois que muitos países fecharam suas portas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É COLUNISTA

 

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