Lucas Jackson/Reuters
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Artigo: Por que os ricos têm tanto poder?

Nos EUA, enormes disparidades de renda e riqueza se traduzem em disparidades de influência política

Paul Krugman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2020 | 04h00

Os Estados Unidos são, em princípio, uma democracia, na qual cada voto tem o mesmo valor. São, também, um país em que a desigualdade de renda disparou – uma realidade que prejudica muito mais pessoas do que ajuda. Então, se estivéssemos desavisados, poderíamos esperar uma reação política: demandas por impostos mais altos para os mais ricos, por mais gastos com a classe trabalhadora e por salários mais altos.

Mas, na realidade, a política seguiu o caminho inverso. Os impostos sobre as empresas e os altos rendimentos caíram; os sindicatos foram esmagados; o salário mínimo, ajustado pela inflação, está mais baixo do que na década de 60. Como é possível?

A resposta é que enormes disparidades de renda e riqueza se traduzem em disparidades de influência política. Para entendermos como isso funciona, vejamos um exemplo bastante recente: a grande barganha orçamentária que quase aconteceu em 2011.

Na época, Washington estava controlando com firmeza a febre do déficit. Embora o governo federal conseguisse tomar empréstimos a uma das taxas de juros mais baixas da história, todas as pessoas importantes pareciam dizer que o déficit orçamentário era o problema mais sério que os Estados Unidos vinham enfrentando e que era essencial controlar os gastos com a Previdência Social e o Medicare.

Assim, o governo Obama ofereceu um acordo aos parlamentares republicanos: cortes na Previdência Social e no Medicare, em troca de impostos ligeiramente mais altos para os mais ricos. O acordo só fracassou porque o Partido Republicano se recusou a aceitar um pequeno aumento de impostos.

A questão é: quem queria um acordo desses? Certamente não a população americana.

Os eleitores em geral não estavam preocupados com os déficits orçamentários. Embora a maioria dos americanos acreditasse que o déficit deveria ser reduzido – sempre acredita –, uma pesquisa da CBS no início de 2011 revelou que apenas 6% da população apontavam o déficit como a questão mais importante, contra 51% que citavam a economia e o emprego.

Tanto o governo Obama quanto os republicanos estavam defendendo posições que nada tinham a ver com os desejos da população. Uma grande maioria sempre quis ver os benefícios do Seguro Social expandidos, e não reduzidos. Uma maioria quase tão grande sempre disse que os americanos de renda alta pagam pouco imposto, não muito.

Então, a luta orçamentária de 2011 refletia os interesses de quem? Dos ricos.

Déficit como prioridade 

Em 2011, um estudo inovador sobre as preferências políticas dos americanos ricos revelou que, diferentemente dos eleitores em geral, os ricos priorizavam a redução do déficit em detrimento de todo o resto. Além disso, em forte contraste com a população, eles defendiam cortes na Previdência Social e nos gastos com a saúde.

E, ainda que alguns bilionários como Warren Buffett venham pedindo impostos mais altos para pessoas como ele, a realidade é que a maioria dos bilionários está obcecada pela ideia de cortar impostos, como o imposto predial, que só os ricos pagam.

Em outras palavras, naquele ano de 2011, um governo democrata fez tudo em nome de uma preocupação política a que apenas os ricos davam prioridade e não conseguiu chegar a um acordo só porque os republicanos não quiseram que os ricos sofressem qualquer ônus.

Por que os ricos têm tanta influência sobre a política?

Parte da resposta são as doações de campanha, historicamente dominadas pelos ricos. Um relatório do New York Times de 2015 revelou que, naquele momento, menos de 400 famílias eram responsáveis por quase metade do dinheiro arrecadado na campanha presidencial de 2016. Isto tem uma importância direta – os políticos que propõem grandes aumentos de impostos sobre a riqueza não podem esperar que receberão dinheiro dos ricos – e também indireta: os doadores ricos têm um acesso aos políticos que o americano comum não tem e desempenham um papel desproporcional na formação da visão de mundo dos formuladores de políticas.

Recompensas financeiras pessoais

No entanto, a influência do dinheiro sobre a política vai muito além das doações de campanha. A propina pura e simples talvez não seja um fator preponderante, mas, mesmo assim, as figuras políticas que apoiam os interesses dos ricos têm grandes recompensas financeiras pessoais. Políticos pró-plutocracia que dão um passo em falso, como Eric Cantor, ex-líder na Câmara – que, em um episódio que ficou famoso, homenageou os patrões no Dia do Trabalho –, logo encontram posições lucrativas no setor privado, empregos na mídia de direita ou sinecuras bem pagas em think tanks conservadores. Você acha que existe uma rede de segurança parecida com esta para Alexandria Ocasio-Cortez ou Ilhan Omar?

E até mesmo os problemas discutidos pela imprensa muitas vezes refletem a agenda dos ricos. Os dólares da publicidade explicam uma parte desse viés, mas outra parte muito provavelmente reflete fatores mais sutis, como a crença (quase sempre falsa) de que as pessoas que ganharam muito dinheiro têm uma ideia especial sobre como a nação inteira pode alcançar a prosperidade.

Talvez o aspecto mais marcante da fixação em cortar benefícios no início da década de 2010 tenha sido o grau em que foi tratada não como uma posição controversa, mas como a coisa inegavelmente certa a se fazer. Como Ezra Klein apontou no Washington Post à época: “Por razões que nunca entendi direito, as regras de neutralidade jornalística não se aplicam quando se trata de déficit. Nesta questão, os repórteres podem torcer abertamente por um conjunto específico de soluções políticas altamente controversas”.

Assim, de várias maneiras, os ricos dos Estados Unidos exercem uma enorme influência política. Nossos ideais dizem que todas as pessoas são iguais, mas, na prática, uma pequena minoria é muito mais igual que o resto de nós.

Mas não sejamos cínicos. Não, os Estados Unidos não são simplesmente uma oligarquia na qual os ricos sempre conseguem o que querem. No final das contas, o presidente Barack Obama aprovou a Lei de Assistência Acessível (Obamacare), a maior expansão dos benefícios governamentais desde a década de 60, e também um aumento substancial dos impostos federais sobre o 1% mais rico, de 28% para 34%.

E não, os americanos mais ricos não dominam igualmente ambos os partidos. Os democratas vêm se tornando cada vez mais progressistas, e os ricos vêm definindo a agenda republicana. Donald Trump pode ter concorrido como populista, mas, uma vez no cargo, reverteu grande parte dos aumentos de impostos de Obama, ao mesmo tempo em que tentou (sem sucesso, até agora) retirar o seguro de saúde de 23 milhões de americanos.

Mas, mesmo que não sejamos cínicos, continua sendo verdade que os Estados Unidos são menos uma democracia e mais uma oligarquia. E, para combater a desigualdade, teremos de enfrentar, além da renda e riqueza desiguais, um poder político desigual / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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