AP Photo/Ariana Cubillos, File
AP Photo/Ariana Cubillos, File

Artigo: Pressão sobre Maduro

A Venezuela tornou-se o Zimbábue das Américas, uma aliança vergonhosa de políticos e Exército

Enrique Krause* / The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2017 | 05h00

O destino da Venezuela tem sido saltar entre os extremos da opressão e da liberdade. A crise que agora convulsiona o país segue esse padrão histórico. Diariamente os venezuelanos de todas as categorias sociais vão às ruas protestar contra a perda da sua liberdade e dos seus direitos constitucionais por parte de um regime tirânico que os condena à escassez de alimentos, doenças, desnutrição e fome.  A mídia social tem nos fornecido uma riqueza de imagens chocantes: a Guarda Nacional atirando indiscriminadamente contra a multidão, assassinatos, tanques investindo contra os manifestamente. Uma Praça Tiananmen diária enquanto o presidente Nicolás Maduro dança a salsa.

Mas o regime chavista continua o seu declínio dos dias de glória à época de Hugo Chávez. Na terça-feira, uma facção da polícia aparentemente lançou granadas de um helicóptero contra o Tribunal Supremo de Justiça em Caracas, no que Maduro qualificou como uma tentativa de golpe. Horas antes, ele havia ameaçado recorrer às armas “se a revolução corresse o risco de ser destruída”.

Essa luta persiste há 200 anos. Em sua guerra de independência – a mais longa guerra no continente – os venezuelanos se mataram com uma selvageria inacreditável, incluindo mulheres, crianças e idosos. Um quarto da população foi dizimada, como quase todo seu rebanho, fonte de sua riqueza. Mas também extremas, em ambição e intensidade, foram as atividades e programas de Simón Bolívar, o libertador de cinco futuras nações latino-americanas. 

A Venezuela enfrentou longos períodos de ditadura e alcançou a ordem constitucional apenas em 1959, nas mãos de outra figura extraordinária, Rómulo Betancourt, o primeiro latino-americano convertido do comunismo para a democracia. Infelizmente, essa democracia expirou em 1998, quando a população venezuelana, cansada de um regime de dois partidos marcado pela corrupção e pelas desigualdades sociais, elegeu Hugo Chávez. Muito mais do que um populista, Chávez foi um redentor hábil e devotado ao uso da mídia.

Viajei à Venezuela várias vezes e conversei com inúmeros chavistas, desde importantes funcionários do governo até líderes sociais, e fiquei impressionado com os depoimentos espontâneos, nos bairros pobres, de venezuelanos aprovando o homem que “pela primeira vez os levou em consideração”. Senti que o compromisso social de Chávez era autêntico, mas colocar seu ideal em prática não exigia instalar uma ditadura. Em 2008, o ministro das Finanças, Alí Rodríguez Araque, disse-me: “Estamos construindo um Estado comunitário que os soviéticos, os chineses e os cubanos não conseguiram”.

Conversei também com pessoas contrárias ao chavismo. Sua principal preocupação era a destruição da democracia, o domínio pessoal crescente de Chávez sobre as alas do governo e os cargos eleitorais. Havia uma clara tendência ao totalitarismo que Chávez já prenunciara em sua primeira visita a Cuba, quando manifestou seu desejo de ser “El Todo” (a personificação de tudo), como Fidel Castro em Cuba.

A morte de Chávez foi seguida pela unção (no estilo monárquico) de seu sucessor. Mas os venezuelanos não estavam preparados para o desastre que veio a ocorrer. Durante 15 anos, cerca de US$ 1 trilhão de receitas do petróleo foi esbanjado e 80% dos venezuelanos se viram na pobreza. A taxa de inflação para 2017 é de 720%, segundo o Fundo Monetário Internacional.

A Venezuela tornou-se o Zimbábue das Américas, uma aliança vergonhosa de políticos corruptos e um Exército condescendente com os ditames de Cuba. Alguns desses líderes são acusados de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. Eles sequestraram a nação latino-americana mais rica em petróleo.

Os assassinatos cometidos pelo governo Maduro ainda não se comparam aos das ditaduras genocidas do Chile e da Argentina nos anos 70. Nem o governo é uma cópia do regime dos Castros, que pôs fim de um só golpe a todas as liberdades e instituições autônomas e é a mais longa ditadura da história moderna. 

É impossível saber como tudo terminará. Mas há uma resposta potencial, a que Rómulo Betancourt formulou em 1959 e foi reafirmada pelo secretário da OEA, Luis Almagro. É a Doutrina Betancourt, reconhecida pela lei internacional: “Regimes que não respeitam os direitos humanos e violam as liberdades dos seus cidadãos devem ser submetidos a um rigoroso isolamento e erradicados por meio de uma ação coletiva da comunidade jurídica internacional”.

Não devemos esperar nada de regimes ditatoriais como China, Rússia ou dos países caribenhos e latino-americanos que ainda se beneficiam, embora precariamente, dos subsídios do petróleo venezuelano. Talvez Barack Obama pudesse ter tido alguma influência sobre o governo cubano, mas será melhor se o governo Trump, com sua falta de legitimidade moral, não intervier.

E ainda, em solidariedade ao corajoso povo venezuelano, Europa e os mais importantes países da América Latina deveriam apoiar esse isolamento – diplomático, financeiro, comercial e político, do regime criminoso de Maduro. Pelo fim à repressão, convocação de eleições imediatas, o restabelecimento das liberdades civis, respeito às instituições democráticas e a libertação dos presos políticos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É HISTORIADOR, EDITOR DA REVISTA LITERÁRIA ‘LETRAS LIBRES’ E AUTOR DO LIVRO ‘REDEEMERS: IDEAS AND POWER IN LATIN AMERICA’

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