Al Drago/NYT
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Artigo: Prisão prejudica guru conservador

Steve Bannon vive a mais recente reviravolta vergonhosa em sua busca por relevância política após a expulsão do governo, em 2017

Maggie Haberman, Michael Schmidt & Jeremy Peters, The New York Times

22 de agosto de 2020 | 05h00

Desde que deixou a Casa Branca, em 2017, Steve Bannon se promoveu como um provocador que luta por uma subclasse deixada para trás por fronteiras abertas e livre-comércio, mesmo quando estabeleceu um relacionamento com um bilionário chinês fugitivo e viajou pelo mundo distribuindo conselhos sobre como organizar movimentos populistas.

Bannon também manteve contato com Donald Trump, dando a impressão de que estava aconselhando discretamente o presidente a distância. Mas a imagem de Bannon como protetor de “homens e mulheres esquecidos” foi destruída na quinta-feira, quando ele foi preso sob a acusação de fraudar doadores para a construção de um muro na fronteira com o México.

Mesmo depois de prometer não pegar nenhum dinheiro para si, Bannon e os outros suspeitos desviaram centenas de milhares de dólares para pagar viagens, hotéis, dívidas de cartão de crédito e outras despesas, segundo os promotores de Manhattan.  Bannon foi preso no iate do bilionário chinês Guo Wengui, em Connecticut, tornando-se mais uma pessoa ligada a Trump a ser indiciada durante sua presidência. Bannon se declarou inocente e o presidente procurou se distanciar da malfadada campanha de arrecadação de fundos do muro. 

A prisão de Bannon foi a última reviravolta vergonhosa em sua busca por relevância política após sua expulsão da Casa Branca, em agosto de 2017. Ele deixou o governo após atrito com autoridades importantes, incluindo o genro do presidente, Jared Kushner, e sua filha Ivanka Trump. Bannon disse que saiu porque quis. Trump afirmou que ele foi demitido. 

Pouco depois de deixar a Casa Branca, segundo documentos, Bannon iniciou um relação financeira com Guo, ex-membro do clube privado de Trump, em Mar-a-Lago, que também atende pelo nome de Miles Kwok. Esse acordo acabou resultando em um contrato de US$ 1 milhão entre Bannon e uma empresa de mídia com o nome de Guo. Ambos disseram que estabeleceram uma relação com base no desprezo comum pelo Partido Comunista da China.

Guo se mudou para um apartamento de US$ 68 milhões em Manhattan com vista para o Central Park, em 2017, e se voltou contra o governo chinês, acusando membros da família do principal funcionário anticorrupção do país de controlar secretamente uma participação em um grande conglomerado. As acusações nunca foram comprovadas e Guo se tornou o homem mais procurado da China, acusado de vários crimes, incluindo suborno e estupro.

Em Nova York, Guo viveu uma vida de luxo, oferecendo aos convidados vinho Opus One e posando com seu cãozinho da raça bichon frisé branco. Seus ataques contra o Partido Comunista da China ganharam a atenção de muitos conservadores, incluindo Bannon, que então voltava ao comando do site de extrema direita Breitbart News, tentando acender um movimento populista ao estilo de Trump.

O projeto de Bannon fracassou em dezembro de 2017, depois que ele apostou tudo na candidatura de Roy Moore, um ex-juiz acusado de abusar sexualmente de adolescentes, que se candidatou a uma vaga ao Senado pelo Estado do Alabama. Bannon ridicularizou as acusações e mobilizou os jornalistas do Breitbart para desacreditar as acusações. Ele fez campanha para Moore, que acabou perdendo a eleição em um dos Estados mais republicanos dos EUA.

Em janeiro de 2018, ele foi demitido do Breitbart. Os financiadores do site, os membros da família Mercer, disseram que se haviam cansado dos impulsos de Bannon e estavam preocupados com gastos excessivos com viagens e segurança pessoal. Bannon havia sido citado no livro de Michael Wolff. Ele teria descrito o filho do presidente como “traidor” e a filha como “burra como um tijolo” – outro fator importante para ele ter sido demitido do site.

Bannon também manteve um bom relacionamento com outros ricaços, incluindo o bilionário Bernie Marcus, fundador da Home Depot. Ele também visitou a casa de Jeffrey Epstein, o pedófilo condenado que, segundo autoridades, se matou na prisão. Bannon foi a principal testemunha do governo no julgamento de Roger Stone, o mais antigo conselheiro político de Trump, que foi condenado a 3 anos de prisão, no ano passado, por ter mentido para o Congresso, ameaçado uma testemunha e obstruído uma investigação.

Este ano, porém, parecia oferecer a Bannon sua redenção pública. Ele começou a apresentar um podcast focado nos riscos econômicos e para a saúde do novo coronavírus. O programam War Room atraiu anunciantes de primeira linha, como a Oracle, e foi escolhido pela Newsmax TV, que exibe a gravação às 23 horas, cinco noites por semana. Em um dos episódios, Bannon apresentou Guo.

A amigos, Bannon disse recentemente que Trump assistia ao programa e estava tão familiarizado com ele que citou algumas entrevistas específicas quando os dois se encontraram pela última vez. Trump, que tem perguntado constantemente aos conselheiros a opinião de Bannon sobre diferentes questões, insistiu, na quinta-feira, após a prisão, que ele não falava com Bannon há algum tempo.

Não ficou claro se Bannon tinha ou não alguma informação para oferecer aos promotores em qualquer acordo judicial para evitar a prisão. Ele foi pego no turbilhão de investigações sobre Trump e seu governo.

Os promotores desconfiam da insistência de Bannon de que ele sabia pouco sobre as ligações da campanha de Trump com a Rússia e expressaram preocupação a respeito de mensagens de texto que pudessem ter sido apagadas por ele – no fim, os investigadores tiveram acesso a elas. 

Bannon passou a maior parte do verão no iate de Guo. Ele disse que pretendia enfrentar a pandemia isolado no barco e estava tomando doses regulares de hidroxicloroquina, que ele acreditava mantê-lo saudável. Bannon brincou dizendo que no feriado do Dia do Trabalho – primeira segunda-feira de setembro, nos EUA – estaria “dois tons mais escuro e 20 quilos mais leve”.

Em entrevista no início do verão, Bannon disse que se sentia redimido por ter feito advertências apocalípticas, no início do governo Trump, de que o país estava mal equipado para lidar com uma catástrofe global. No entanto, ele parecia melancólico pelos dias em que podia falar diretamente ao presidente no Salão Oval. “O mundo não é perfeito”, afirmou. “É por isso que Bannon está em seu porão fazendo um podcast.”

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