Mladen Antonov/Reuters
Mladen Antonov/Reuters

Artigo: Putin e o amor envenenado de Trump

No encontro de cúpula do G-20, Trump deve saborear seu tão esperado aperto de mão com Putin

Nina L. Krushcheva* /  Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2017 | 05h00

O presidente Donald Trump deve estar atordoado: nesta sexta-feira, paralelamente à reunião do G-20 em Hamburgo, ele finalmente se encontrará com seu colega russo, o herói ditador  Vladimir Putin.

É raro uma pessoa que chegou ao mais alto cargo nos Estados Unidos ter alguma aptidão, muito menos interesse, em venerar um herói. E é raro também – mas não sem precedentes -, alguém nessa posição dever tanto a um líder estrangeiro. No caso de Trump, as prováveis intromissões de Putin na eleição presidencial de 2016 podem muito bem ter contribuído para sua vitória, do mesmo modo que já causam danos consideráveis à sua presidência.

Trump já expressava sua admiração por Putin antes da eleição e, ao que parece, sonhava encontrar-se com ele, um sonho tão potente, aparentemente, que o levou a afirmar que realmente desejava encontrá-lo durante o concurso de Miss Universo de 2013, em Moscou (antes do concurso ele chegou até a perguntar a seus seguidores no Twitter se achavam que Putin compareceria ao evento e se ele seria “o novo melhor amigo de Trump).

A história foi desmentida, mas Trump não renunciou ao seu sonho. Em 2015, teria sugerido que ele e Putin haviam dividido o “salão verde” do programa 60 Minutos, quando ambos foram entrevistados, mas rapidamente voltou atrás, uma vez que as entrevistas, na verdade, foram realizadas em continentes diferentes, o que foi rapidamente percebido. Trump disse então que havia conversado com Putin por telefone – alegação que depois mudou, afirmando ter conversado com membros do grupo mais próximo do presidente russo.

De qualquer maneira, as fantasias de Trump agora se tornam realidade. Mas, num momento em que um conselheiro especial investiga se a sua campanha presidencial operou em conluio com a interferência da Rússia na eleição, revogar qualquer uma das sanções, mesmo as mais simples, que Barack Obama sancionou para punir a Rússia pela interferência na campanha, pode não ser a ideia mais sensata. Mas há rumores de que Trump poderá fazê-lo. E dada à sua tênue relação com a sensatez, tal possibilidade não pode ser descartada.

Se Trump adotar tal medida, Putin naturalmente terá razões para comemorar. Mas, se for o contrário, é preciso indagar se, da perspectiva do presidente russo, os seus aparentes esforços para ajudar Trump a ser eleito compensaram.

Trump certamente dissemina o caos no Ocidente. Os generais russos se alegram cada vez que ele se recusa a endossar o artigo 5º do estatuto da OTAN – a cláusula de defesa coletiva básica da aliança e, em vez disto, envenena a aliança colocando-se contra seus líderes por gastos insuficientes com a defesa.

Os desacordos de Trump com a chanceler alemã Angela Merkel, que declarou após a cúpula do G-7 em maio que os Estados Unidos não devem mais ser considerados “parceiro confiável” como outrora -  causaram muita incerteza. Responsável por liderar os esforços para solucionar a crise persistente na Ucrânia, a Alemanha sem dúvida sente-se de algum modo desprotegida – e a Rússia de algum modo encorajada.

Mas a crença evidente de Trump na teoria do caos, no geral não é boa para a Rússia, especialmente numa época em que sua economia, depois de três anos de sanções e preços do petróleo em queda, respira com dificuldade.  Putin não está conseguindo sustentar sua barganha tácita com a classe média russa – “vocês silenciam e eu sustento seu modo de vida” – e a intranquilidade resultante disto está à mostra cada vez mais nas ruas das cidades russas. Mais uma fonte de incerteza é a última coisa que Putin deseja ou que a economia russa necessita.

Naturalmente é improvável que o crescente descontentamento  dissuadirá Putin de se candidatar a uma reeleição no próximo ano. Ele provavelmente sabe que tem poucas opções senão continuar presidente pelo resto da vida, para a sua própria segurança.

Mas sem a barganha com a classe média, que tem oferecido a ele  uma espécie de legitimidade mais durável do que qualquer votação proporcionaria, ficará cada vez mais difícil manter as várias facções da elite russa sob controle. Por outro lado, os membros sempre desconfiados dessas facções poderão muito bem começar a duvidar da viabilidade a longo prazo do sistema que ele construiu.

Ninguém sabe o que ocorrerá quando tais dúvidas despertarem mais atenção. Em 1998, um ano antes de Putin chegar pela primeira vez à presidência, muita gente fora da Rússia, ou mesmo dentro do país, jamais ouvira falar dele. Foi a implosão da legitimidade de Boris Yeltsin, em seu último ano no cargo, que colocou o temperamental ex-coronel da KGB no mapa político russo.

Na base da afinidade entre Trump e Putin está a percepção de que ambos são essencialmente líderes com espírito ditatorial. Mas essa afinidade,  e o seu relacionamento, seja qual for, podem ser motivo da sua fraqueza. Do mesmo modo que a intervenção de Putin na eleição presidencial dos Estados Unidos debilitou a presidência de Trump, o que se reflete nos seus baixos índices de aprovação, o caótico comportamento de Trump também socava a posição de Putin, já prejudicada por sua própria má gestão da economia. Putin deve agora ficar mais preocupado com os desafios das ruas, e de dentro do seu governo.

Neste encontro de cúpula do G-20, Trump deve saborear seu tão esperado aperto de mão com Putin. Em breve tanto ele como seu herói autocrata poderão estar lamentando o fato de um dia terem desejado se encontrar. / Tradução de Terezinha Martino  

*Nina L. Khrusheva é professor de Assuntos Internacionais e diretora associada na New School, e também membro sênior do World Policy Institute

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