Courtesy of Eric Paddock via AP
Courtesy of Eric Paddock via AP

Artigo: Se ele fosse islâmico

Se Stephen Paddock fosse muçulmano, Donald Trump estaria tuitando um “eu avisei” a toda hora

Thomas L. Friedman* / The New York Times , O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2017 | 05h00

Se Stephen Paddock fosse muçulmano, se tivesse gritado “Allahu akbar” antes de abrir fogo contra a multidão que assistia ao show em Las Vegas, se fosse membro do Estado Islâmico (EI), se pelo menos tivéssemos uma foto dele com o Alcorão em uma das mãos e a semiautomática na outra... Se tudo isso fosse verdade, ninguém estaria nos dizendo para não desonrarmos as vítimas nem “politizarmos” a chacina de Paddock falando em medidas preventivas.

Não, não, não. Sabemos muito bem o que estaríamos fazendo agora. Estaríamos agendando audiências emergenciais no Congresso para discutirmos o pior caso de terrorismo em solo americano desde o 11 de Setembro. Donald Trump estaria tuitando um “eu avisei”, como ele sempre faz minutos depois de todo ataque terrorista na Europa, exatamente para politizá-los de imediato.

Haveria também convocações urgentes para se instalar uma comissão de inquérito, com o objetivo de ver quais novas leis deveríamos implementar para garantir que um evento desse tipo não voltasse a acontecer. E, então, estaríamos “ponderando sobre todas as alternativas” a serem tomadas contra o país de origem do terrorista. 

Mas o que acontece quando o país de origem é o nosso? O que acontece quando o assassino era apenas um americano perturbado e armado até os dentes, com armas militares que ele comprou legalmente ou adquiriu sem qualquer dificuldade, graças a nós e a nossas leis loucas e frouxas no que diz respeito ao armamento?

A gente sabe o que ocorre: o presidente e o Partido Republicano fazem de tudo para garantir que nada aconteça. Eles insistem que o evento – ao contrário de todos os ataques terroristas relacionados ao EI – não pode ser “politizado”, que não devemos pedir às pessoas, muito menos a eles próprios, que se olhem no espelho e repensem sua oposição a uma política de armas sensata.

Uma rápida recapitulação: nós vamos virar o mundo de cabeça para baixo até caçarmos o último combatente do EI na Síria – utilizando B-52s, mísseis de cruzeiro, F-15s, F-22s, F-35s e U2s. Pediremos aos nossos melhores homens e mulheres que façam o supremo sacrifício de matar ou capturar todos os terroristas. E quantos americanos o EI matou no Oriente Médio? Nunca me lembro. São 15 ou 20? Mas nosso presidente nunca deixa de nos dizer que, quando se trata do EI, a derrota não é uma opção, que a misericórdia não está no cardápio, que ele é tão durão que tem como secretário de Defesa um homem cujo apelido é “Cachorro Louco”.

No entanto, na hora de lutar contra a Associação Nacional do Rifle (NRA), que mais do que qualquer outra organização impediu a aprovação de leis sensatas de controle de armas –, a vitória não é uma opção, a moderação não está no cardápio, o presidente e o Partido Republicano não têm cachorros loucos, só uns gatinhos de estimação.

E eles não vão fazer o menor sacrifício para defender uma lei que dificulte o acesso dos americanos a um arsenal como o de Paddock, que tinha 42 armas, entre elas algumas metralhadoras (19 em casa e 23 em seu quarto de hotel), além de milhares de cartuchos de munição e “dispositivos eletrônicos”. Só mais um caçador de cervos, parece.

Quando o negócio é acabar com o EI, nosso presidente e seu partido estão dentro. Quando é preciso pedir à NRA um mínimo de bom senso, eles pulam fora. Não importa quantos inocentes sejam mortos, não importa nem mesmo que um de seus próprios líderes no Congresso seja baleado jogando beisebol. Nunca é hora de discutir qualquer política séria para aplacar a violência armada.

Enfrentar o EI no exterior, mas não fazer nada para conter outras ameaças reais dentro de nossos quintais, praças de eventos e cidades costeiras, é uma loucura total. É também uma forma de corrupção, porque tem como impulso o dinheiro e a ganância – dos fabricantes e vendedores de armas de todos os legisladores e reguladores que essas empresas compraram e pagaram para ficar de boca fechada. Eles sabem muito bem que a maioria dos americanos não quer tirar o direito de as pessoas caçarem ou se defenderem.

Tudo o que queremos tirar é o direito de alguém acumular um arsenal militar em sua casa ou quarto de hotel – e usá-lo contra americanos inocentes, só porque sentiu uma raiva louca. Masa NRA mantém congressistas covardes na rédea curta.

Esqueça a ideia de persuadir esses legisladores. Eles não estão confusos nem desinformados. Na verdade, foram comprados ou intimidados. Porque nenhum legislador honesto e decente conseguiria olhar para Las Vegas e Porto Rico e dizer: “Acho que a coisa mais inteligente e prudente a se fazer, pensando nos nossos filhos, é não fazer absolutamente nada”.

Então, só tem uma saída: tomar o poder. Se você está tão farto quanto eu, registre alguém em quem votar, concorra a um cargo público você mesmo ou doe dinheiro a alguém que se candidate a substituir esses legisladores covardes. Tem de ser poder bruto, não persuasão. E a primeira chance que teremos para mudar esse equilíbrio de poder será nas eleições de 2018. Nem tente fazer nada antes disso. Não desperdice seu fôlego. Simplesmente tome o poder. Comece agora. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

*É COLUNISTA

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