Artigo: Sem paz na primavera

Levantes exacerbaram fissuras sociais profundas entre secularistas e islamistas, e entre seitas religiosas

Ben Hubbard e Rick Gladstone *, The New York Times - O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2013 | 02h03

Na Líbia, milícias preencheram o vazio deixado pela revolução que derrubou um ditador. Na Síria, um levante se transformou numa guerra civil que deixou mais de 100 mil mortos e virou abrigo para extremistas islâmicos. Na Tunísia, divisões cada vez mais profundas retardam a redação de uma nova Constituição.

Agora, no Egito, Exército e forças de segurança, após terem deposto o presidente islamista eleito, mataram centenas de pessoas, declararam estado de emergência e agravaram a polarização.

Está claro que o velho status quo da região, dominada por ditadores que governavam por decretos e esmagavam dissidentes, foi danificado, se não extinto, nos três anos desde a eclosão da Primavera Árabe. O que não está claro, porém, é o modelo de substituição. A maioria das sublevações evoluiu para lutas ferozes, uma mistura de batalhas de forças políticas sobre as regras de participação, a relação entre os militares e o governo, o papel da religião na vida pública e o que significa ser cidadão e não súdito.

Analistas dizem que a estagnação política e econômica nas décadas de regime autoritário deixou os países precariamente equipados para construírem novos governos e sociedades civis. Embora alguns movimentos tenham alcançado seus objetivos iniciais, os mais amplos - democracia, dignidade, direitos humanos, igualdade e segurança econômica - estão mais longe.

"A velha ordem regional se foi e uma nova ordem está sendo traçada com sangue. Isso levará um longo tempo", disse Sarkis Naoum, analista do jornal libanês An Nahar. "Ninguém na Síria, Líbia, Egito ou Tunísia que queria se livrar do regime estava preparado para o que veio depois."

A Primavere Árabe revelou e exacerbou fissuras sociais profundas, entre secularistas e islamistas e entre diferentes seitas religiosas. "É uma polarização política com esteroides", disse Jeffrey Martini, especialista em Oriente Médio da Rand Corporation. "Ambos os lado tentam banir o outro da política."

Por toda a região, as sublevações não conseguiram atender às reivindicações dos cidadãos que haviam clamado por mudanças. "A maioria das economias do Oriente Médio fustigadas pela Primavera Árabe já estava seguindo na direção errada", disse Joshua Landis, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Oklahoma. "As mazelas econômicas causadas pelo inchaço das populações jovens, desemprego, altas de preços e seca contribuíram tanto para os levantes quanto a opressão política."

Para alguns historiadores, considerando os regimes autocráticos que existiam, as convulsões sociais foram dolorosas, mas inevitáveis e causaram mudanças comportamentais profundas.

Para Zaid al-Ali, constitucionalista egípcio, agora se tornou normal cidadãos de países da Primavera Árabe insultarem seus governantes - o que seria impensável anos atrás. "Essa dinâmica de liberdade de expressão e de liberalização política nos levará a uma direção positiva no longo prazo", disse.

Mohamed al-Sabri, líder opositor no Iêmen, onde os protestos derrubaram o presidente Ali Abdullah Saleh, no ano passado, disse que o senso geral de poder era a conquista mais significativa das sublevações até agora. "As elites e os líderes podem renunciar, mas o povo, não", disse.

* Ben Hubbard e Rick Gladstone são jornalistas.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.