REUTERS/Feisal Omar
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Artigo: Somália, Gaza, Capão Redondo

Os protestos contra o pequeno espaço dedicado à cobertura do atentado em Mogadíscio deveriam ser ouvidos nas redações

Eugênio Bucci, Especial para o Estado , O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Num atentado em Mogadíscio, capital da Somália, no dia 14, dois caminhões-bomba deixaram 358 mortos e uma onda de protestos contra a cobertura jornalística. Para muitos dos que se manifestaram nas redes sociais, em blogs e em artigos de opinião, os órgãos de imprensa dedicaram um espaço mínimo à tragédia. Afirmam que a imprensa é racista e elitista: os noticiários não dão destaque ao atentado de Mogadíscio porque as vítimas são negras e pobres. 

Há uma ponta de demagogia nessa acusação, mas ela deve ser levada a sério pelos jornalistas profissionais. Primeiro, é preciso entender por que existe demagogia. Em seguida, é dever da imprensa repensar os seus critérios de cobertura nesses casos. 

Sobre a demagogia. Redações profissionais trabalham para seus públicos. Assinantes, ouvintes, leitores e telespectadores brasileiros não passam férias na Somália. É raro que viajem para a Somália, não têm parentes na Somália e, dificilmente, teriam suas vidas afetadas por uma decisão de uma autoridade somali. Mogadíscio, portanto, não faz parte do seu rol de preocupações. Mesmo assim, este jornal, como outros, noticiou o atentado, com pequena chamada na primeira página, em uma reportagem de quase meia página na editoria de Internacional, na edição do dia 16. Há várias notícias a respeito no portal do Estadão.

A acusação de racismo não se justifica. Crimes cometidos por policiais brancos contra negros nos EUA são noticiados profusamente na imprensa brasileira. O motivo é simples, é técnico: o que ocorre nos EUA afeta muito mais a vida do leitor brasileiro do que o que ocorre na Somália.

Fora isso, existe, sim, um desnível brutal – mesmo desumano – no critério que separa o que é notícia do que não é. Para isso, não precisamos ir até a Somália, lá longe. Peguemos como exemplo a cidade de São Paulo. Um latrocínio nos Jardins é notícia. Um assassinato no Capão Redondo, desgraçadamente, passa em branco. A concentração de assinantes no Capão Redondo é menor, são reduzidas as chances de uma fonte residir no Capão Redondo.

Há, portanto, uma explicação técnica para que os Jardins mereçam mais atenção dos repórteres. Mas fica no ar a pergunta: essa explicação técnica serve como justificativa ética? A imprensa deve seguir acriticamente as desigualdades produzidas por injustiças sociais clamorosas, ou tem o dever de dar visibilidade àqueles a quem a pobreza extrema e o abandono condenaram à invisibilidade?

O mesmo desnível é percebido em Israel. Se alguém morrer na cidade de Sderot, atingido por um míssil artesanal vindo da Faixa de Gaza, será notícia. Se alguém morrer em Gaza, a poucos passos de Sderot, por um ato de violência de um agente do Estado de Israel, receberá um destaque menor. Há explicações de técnica jornalística para essa distinção de tratamento? Certamente que sim. Agora: essas explicações técnicas são, para nós, eticamente suficientes? Provavelmente não.

Por isso, os protestos contra o pequeno espaço dedicado à cobertura do atentado em Mogadíscio deveriam ser ouvidos nas redações. Deveriam motivar o reexame de critérios editoriais. Mas, por favor, sem demagogia. É bom lembrar que muitos daqueles que maldizem o noticiário sobre a Somália só souberam do ataque porque os jornalistas cumpriram seu dever de noticiá-lo com bom nível de detalhes. Isto posto, é mais do que hora de reexaminarmos o que separa os mortos que viram manchete dos mortos que são sepultados na invisibilidade.

*É JORNALISTA E PROFESSOR DA ECA-USP

 

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