ARTIGO: telefonemas provam que regime usou gás neurotóxico

Muitos congressistas moderados já apoiam uma intervenção armada na Síria; a dúvida da Casa Branca é apenas quando atacar

Noah Shachtman / FOREIGN POLICY,

30 de agosto de 2013 | 02h17

Na quarta-feira, após o ataque com armas químicas em Damasco, um funcionário do Ministério da Defesa sírio falou ao telefone em pânico com o chefe de uma unidade de armas químicas, exigindo respostas a respeito de um ataque com um agente neurotóxico no qual morreram mais de mil pessoas.

As conversações foram grampeadas pelos serviços de inteligência dos EUA, segundo apurou o site The Cable. Esse é o principal motivo pelo qual as autoridades americanas afirmam ter certeza de que os ataques foram praticados pelo regime de Bashar Assad. As interceptações respondem outras questões. O ataque foi ordenado por membros do alto escalão do regime? "Não se sabe ao certo quem está no controle", disse um funcionário da inteligência dos EUA ao site The Cable.

Os americanos não sabem qual foi o raciocínio lógico para o lançamento do ataque. Talvez tenha sido um general qualquer ou erro de cálculo de Assad. Seja como for, ele despertou uma profunda repulsa no mundo e levou o governo de Barack Obama a se preparar para atacar a Síria.

Analistas têm certeza de que no dia 21 de agosto foram usadas armas químicas - os telefonemas interceptados, combinados com relatos de médicos e vídeos são considerados provas positivas. Entretanto, os serviços de espionagem ainda não conseguiram as provas irrefutáveis: amostras de solo, sangue e outros elementos.

No governo de Obama há um debate sobre a possibilidade de atacar imediatamente ou permitir que inspetores da ONU colham as provas antes do início dos bombardeios. Na terça-feira, o secretário de imprensa da Casa Branca, Jay Carney, definiu o trabalho da equipe como "redundante", porque já 'ficou claro que foram usadas armas químicas em uma escala considerável".

Quando surgiram as primeiras notícias sobre o ataque, indagou-se se um agente químico teria sido o causador do massacre. Mas, quando especialistas começaram a rever vídeos e fotos tiradas no local, concluíram rapidamente que havia sido usado um gás como o sarin.

Os vídeos mostraram vítimas jovens que mal conseguiam respirar e, em alguns casos, se contorciam. Fotos revelaram pupilas contraídas. Médicos e enfermeiras que trataram das vítimas contaram que também tiveram dificuldade para respirar. Testemunhas falaram que havia criancinhas tão confusas que não identificavam os próprios pais. Todos os casos são sinais de exposição a um agente neurotóxico como o sarin.

O que tornou as provas ainda mais conclusivas foram as imagens dos mísseis que supostamente transportaram os engenhos mortais. Se carregassem ogivas nucleares convencionais, provavelmente, ficariam quase destruídos quando elas detonassem. Vários mísseis foram encontrados praticamente intactos porque estavam, provavelmente, com agente neurotóxico, e não com explosivos convencional.

Nos dias que se seguiram, houve amplas discussões para tentar entender qual seria o lado da guerra da Síria responsável pelo ataque. Aliados de Assad, como Irã e Rússia, apontaram para a oposição. As comunicações interceptadas contam uma história diferente: o governo seria o culpado.

A Casa Branca informa que o presidente ainda estuda as opções em relação à Síria. A dúvida diz respeito apenas a quando um ataque será realizado - e não se será realizado. Até mesmo alguns moderados do Congresso já estão abertos à possibilidade. Imagens de crianças mortas, cuidadosamente enfileiradas, sempre fazem as pessoas mudarem de opinião. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

* É JORNALISTA

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