TIMOTHY A. CLARY / AFP
TIMOTHY A. CLARY / AFP

Artigo: Trump acelera a chegada de um mundo pós-americano

O isolamento dos Estados Unidos deixa espaço para a China e cria um mundo menos pacífico e próspero 

Fareed Zakaria* / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 05h00

O discurso do presidente Donald Trump, na terça-feira, nas Nações Unidas, foi uma apresentação inteligente de sua visão de “EUA em Primeiro Lugar”. Ele planejou a abordagem de perseguir o limitado interesse próprio acima dos globais mais amplos e privilegia a ação unilateral sobre a cooperação multilateral. Mas Trump pode não reconhecer que, enquanto ele retira os EUA das arenas globais, o resto do mundo segue em frente sem Washington. 

Intencionalmente ou não, Trump parece estar apressando a chegada de um mundo pós-americano.

Tome-se uma de suas primeiras grandes ações, retirando-se da Parceria Trans-Pacífico (TPP), o abrangente acordo comercial concebido durante o governo de George W. Bush e negociado por Barack Obama. Foi uma tentativa de abrir mercados há muito fechados como o Japão, mas também de criar um grupo que pudesse resistir à crescente força da China em questões comerciais.

Os outros 11 países da TPP decidiram manter o acordo sem Washington, o que significa simplesmente que os EUA não terão acesso a esses mercados. O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, embora bajulado por Trump, também fechou rapidamente um acordo de livre-comércio com a União Europeia, criando um dos maiores bloco econômicos do mundo e dando oportunidades à Europa que poderiam ter ido para os EUA.

Como Ivo Daalder e James Lindsay apontam em The Empty Throne (O trono vago, em tradução livre), livro que sairá em breve, se você não estiver à mesa, você está no cardápio. Quando Washington se afasta, a agenda global é moldada sem a participação dos americanos. Então, retirar-se do Conselho de Direitos Humanos da ONU significa simplesmente que os diplomatas americanos assistirão às rotineiras condenações de Israel do lado de fora, ao mesmo tempo em que terão menor capacidade de pressionar moralmente déspotas em toda parte.

Os ataques constantes de Trump à Organização Mundial do Comércio (OMC), uma ideia americana, deixaram o campo aberto e a China ansiosa para moldar as regras e convenções que governarão o comércio global. Quando Trump corta fundos para várias agências internacionais, ele as está jogando diretamente nas mãos de Pequim, que há muito tempo busca maior influência nesses órgãos. 

Avanço 

A China terá todo o prazer em pegar o crachá e aceitar novos postos, juntamente com o status e a influência que eles trazem. Da mesma forma, a ausência bizarra e contínua de importantes diplomatas americanos – não há secretários adjuntos de Estado para o Leste da Ásia e Sul da Ásia; a inexistência de embaixadores na Arábia Saudita, na Turquia, no Egito e na África do Sul – significa que os interesses americanos não estão representados.

Talvez o mais interessante novo esforço para contornar os EUA tenha vindo dos europeus, em reação à decisão de Trump de retirar-se do pacto nuclear do Irã e impor sanções financeiras aos iranianos e a qualquer um que faça negócios com eles. Em razão da imensa força global do dólar, poucas grandes empresas estão dispostas a se envolver comercialmente com o Irã – uma vez que o dólar é a moeda mais comumente usada para transações internacionais. Isso enfureceu os europeus, que acreditam que devem ter a capacidade de fazer negócios com quem quiserem.

Eles estão, portanto, tentando criar um mecanismo econômico que possa ignorar o dólar. Como a alta representante da União Europeia, Federica Mogherini, disse-me esta semana: “Não podemos aceitar, como europeus, que outros – até mesmo nossos aliados e amigos mais próximos – determinem e decidam com quem podemos fazer negócios ou negociar”. 

Mogherini indicou que outros – presumivelmente russos e chineses – poderiam se unir a esse esforço. Se os esforços da União Europeia forem bem-sucedidos, eles poderiam afetar o elemento mais significativo do poder financeiro americano: o papel incomparável do dólar na economia global.

A verdade é que dificilmente o esforço europeu terá sucesso. A influência do dólar aumentou nos últimos anos, já que um sistema internacional globalizado precisava de uma moeda comum. O futuro do euro continua em dúvida, o yuan chinês não é sequer conversível, o iene do Japão revela um país em profundo declínio demográfico. E, no entanto, parece tolo que os Estados Unidos adotem políticas que produzam o desejo de reduzir o poder americano, ignorar Washington e criar arranjos novos, especialmente entre os aliados mais próximos dos Estados Unidos. Uma coisa é o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente chinês, Xi Jinping, estarem tentando inaugurar um mundo pós-americano. Outra é a Europa assumir a liderança de fazê-lo.

O resultado da abdicação dos EUA não será o domínio europeu ou chinês. Será, no longo prazo, uma maior desordem, a erosão das regras e normas globais e um mundo mais imprevisível e instável, com menos oportunidades para as pessoas comprarem, venderem e investirem em todo o mundo. Em outras palavras, significa um mundo menos pacífico e próspero, no qual a influência americana será grandemente diminuída. Como isso pode ser uma vitória para os EUA?

*É COLUNISTA

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