Jim Watson / AFP
Jim Watson / AFP

Artigo: Trump, Bibi e Bolsonaro entendem melhor nosso tempo?

Liberais apostaram que sociedades mais cultas e interligadas sepultariam o nacionalismo; não é o que estamos vendo

Fareed Zakaria * / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 03h00

Há muitas explicações para a vitória de Binyamin Netanyahu nas últimas eleições relacionadas à particular situação de Israel – o boom econômico, a segurança climática e o talento político do primeiro-ministro. Mas ela é também parte de um fenômeno muito maior: o contínuo crescimento do nacionalismo político no mundo e a continuada inabilidade dos partidos de centro-esquerda de responder a isso.

O nacionalismo populista funciona mais ou menos assim: existe um mundo desagradável lá fora, com pessoas querendo tomar nossos empregos, solapar nossa segurança e invadir nosso país. As elites cosmopolitas urbanas não ligam – elas se beneficiam dessas forças. Portanto, precisamos de um cara durão para proteger a nação dos liberais que transitam por essa névoa. 

Com uma ou outra variável, esse é o argumento usado por Netanyahu, Vladimir Putin, Recep Tayyip Erdogan, Narendra Modi, Viktor Orbán, Jaroslaw Kuczynski, Jair Bolsonaro, os brexiteers e, claro, Donald Trump.

Em 1972, o filósofo Isaiah Berlin escreveu que o nacionalismo “expressa o ardente desejo dos menos favorecidos de serem representados entre as culturas do mundo”. Berlin situa as raízes do nacionalismo moderno na Alemanha, um país obcecado em encontrar seu lugar ao sol. 

Mas o sentimento nacionalista – uma espécie de mentalidade de vítima – pode ser encontrado em inúmeras variações modernas, mesmo em nações ricas e poderosas.

É só ver a queixa de Putin de que a Rússia tem sido maltratada pelo Ocidente desde a Guerra Fria. A obsessão dos chineses com uma humilhação que vem das guerras do ópio. A acusação da direita israelense de que o mundo tem preconceito contra Israel. E o incansável bordão de Trump de que todos os estrangeiros – dos mexicanos aos chineses e europeus – se aproveitam dos Estados Unidos. Os líderes dessas nações prometem corrigir a situação e devolver a seus países o merecido lugar no mundo.

A adoção por Trump da palavra “nacionalismo” ilustra bem seus ataques simultâneos às elites domésticas (com sua linguagem politicamente correta) e aos pérfidos estrangeiros. “Dizem que não devemos usar essa palavra”, afirmou Trump em outubro. “Mas sabem o que eu sou? Sou um nacionalista. Não há nada de errado nisso. Usem essa palavra.”

No dia seguinte, quando lhe perguntaram o que ele quis dizer, Trump respondeu: “Amo nosso país, e nosso país tem tido um papel subalterno. Estamos entregando toda nossa riqueza, todo nosso dinheiro, a outros países. E eles não nos tratam como merecemos”. 

Netanyahu, por sua vez, há muito argumenta que Israel merece “um lugar muito melhor entre as nações”, frase que deu título a seu livro de 1993 no qual ele defende para Israel um nacionalismo agressivo e não pede desculpas. Embora a força e a segurança de Israel tenham crescido imensuravelmente, com seus inimigos históricos – Arábia Saudita e Síria, entre outros – se tornando amigos ou amargando sua situação, o argumento de que o mundo está contra ele de algum modo persiste. 

De fato, apesar do papel de vítima assumido pela maioria desses populistas, o nacionalismo é hoje provavelmente a ideologia mais amplamente adotada no mundo. Que político americano não defende os Estados Unidos? O verdadeiro debate é se o nacionalismo deveria ser atualizado e influenciado por valores como liberdade e igualdade e, se esses dois valores colidirem, com qual dos dois o nacionalismo ficaria. Essa é a razão pela qual os mais convictos capitalistas – de Friederich Hayek a Milton Friedman – sempre consideraram a globalização e a liberdade econômica acima das proteções e controles nacionalistas. 

O perigo para os liberais é que eles subestimaram o poder desses apelos taxativos e emocionais. Por séculos, os liberais assumiram que nacionalismo era um tipo de fixação irracional que ficaria mais fraco à medida que as pessoas se tornassem mais racionais, conectadas e globalizadas. De fato, escreveu Berlin, como um ramo se curva numa direção e tem de voltar à posição inicial, à proporção que a globalização fosse atingindo sua plenitude o nacionalismo entraria em previsível retrocesso. 

Nacionalistas populistas entendem o apelo que está na base de sua ideologia. Perguntei recentemente a um partidário de Jair Bolsonaro se era na política econômica do presidente (reformista e orientada para o mercado livre) ou se era em seu nacionalismo cultural que estava a chave da atração que ele exercia. A resposta foi: o centro do partido é o nacionalismo. A política econômica resume-se a eficiência e crescimento. 

De sua parte, liberais dos Estados Unidos parecem não ter ainda entendido isso. O Partido Democrata continua achando que a solução para suas desgraças é continuar com uma política econômica que tende para a esquerda. Na semana passada, Bernie Sanders, senador por Vermont, revelou seu novo plano “Medicare para todos”, no que foi imediatamente apoiado por quatro outros candidatos à presidência. O plano provavelmente vai exigir de US$ 2 trilhões a US$ 3 trilhões adicionais em impostos.

Enquanto isso, Trump critica no Twitter a paixão dos democratas pelas fronteiras abertas e insiste que vai proteger o país e reforçar as leis de controle da imigração. E se Trump estiver entendendo melhor que Bernie Sanders o espírito de nosso tempo? / Tradução de Roberto Muniz

* É COLUNISTA

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