Erin Schaff/The New York Times
Erin Schaff/The New York Times

Artigo: Trump busca uma vitória em política externa

Após quase três anos na Casa Branca, presidente tem poucas conquistas para apresentar aos eleitores americanos

Fareed Zakaria / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2019 | 05h00

No momento em que Donald Trump parte para seu quarto assessor de Segurança Nacional em três anos, fica claro que sua política externa está em frangalhos. Provocou muita turbulência, mas quase nada alcançou de concreto. Apesar de todas as bravatas do presidente, não há nenhum acordo com China, Irã, Coreia do Norte, Taleban ou entre israelenses e palestinos – apenas incerteza, desapontamento e muitos sentimentos feridos.

Trump disse que era um excelente negociador. Mas, além de mudanças insignificantes no caso do Nafta (Acordo de Livre-Comércio da América do Norte) e de um pacto comercial com a Coreia do Sul, Trump realizou muito pouco. E existem muitas razões para isso. 

O seu governo tem sido caótico e indisciplinado, trazendo o etos de uma imobiliária familiar para uma das maiores e mais complexas instituições do mundo, o governo dos EUA. A rotatividade da equipe de alto escalão foi maior em dois anos e meio do que em muitos governos anteriores.

Mas o problema é que Trump, apesar das bravatas, é um mau negociador. No caso de Kim Jong-un e do Taleban, ele cedeu um poder de influência crucial desde o início. Os norte-coreanos queriam reuniões diretas com o presidente dos EUA havia décadas e a resposta sempre foi que isso ocorreria apenas depois de eles fazerem concessões. Trump dispensou isso, esperando com charme convencer Kim a renunciar às armas nucleares. Até agora, Kim está vencendo por um a zero.

Trump armou confusão no Afeganistão

No caso do Afeganistão, Trump condenou Barack Obama por anunciar prazos para a retirada de tropas americanas, alegando que isso permitiria ao inimigo ficar à espreita. Mas acabou fazendo algo similar, anunciando repetidamente sua vontade de se retirar e sendo surpreendido pelo fato de que o Taleban procurou tirar vantagem disto.

Analise a confusão que Trump armou no Afeganistão: demitiu o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, aparentemente porque ele era contra um acordo com o Taleban – apenas para que Trump, em seguida, cancelasse as negociações com o Taleban, concordando efetivamente com Bolton.

Com a saída de Bolton, Trump tem a oportunidade de agir segundo seus instintos e realmente fazer alguma coisa – como um novo acordo nuclear com o Irã. O restabelecimento de sanções determinado por ele tem sido surpreendentemente e brutalmente eficaz.

Diante do papel determinante do dólar no sistema econômico internacional, e apesar de outros países desejarem continuar negociando com o Irã, eles simplesmente não conseguem realizar grandes transações sem usar o dólar e, assim, o sistema financeiro dos EUA.

O Irã é uma antiga e orgulhosa civilização e uma potência regional sagaz. Não vai simplesmente se render. Mas poderá concordar com um novo acordo que consiga mais do que o firmado por Obama. 

Caso isso ocorra, Trump poderá afirmar que, embora tenha adotado um enfoque não convencional, conseguiu o que ninguém achava possível, ou seja, um novo acordo com o Irã.

Iranianos só negociarão com sanções levantadas

Para isso dar certo, Trump terá de vencer alguns dos seus assessores mais beligerantes e encontrar um caminho para uma negociação. Os iranianos só se sentarão à mesa se as sanções forem suspensas e desejarão redigir todas as mudanças feitas como medidas adicionais para implementação do acordo de 2015, e não como um novo pacto. Seja como for, é para isso que servem os diplomatas.

O objetivo de Trump deve ser a anuência dos iranianos a uma ampliação do espaço de tempo no caso de partes do acordo em aproximadamente cinco anos. Ele não conseguirá muitos avanços quanto ao arsenal de mísseis balísticos – Teerã considera seu arsenal uma defesa contra o Exército saudita (o país tem amargas lembranças do tempo em que ficou impotente diante das rajadas de foguetes e mísseis lançados por Saddam Hussein durante a guerra Irã-Iraque).

 

Quando às outras atividades, como seu apoio ao Hezbollah, por exemplo, talvez os iranianos se mostrem dispostos a conversar, mas Trump tem de analisar se o assunto levará a uma conversa interminável envolvendo Israel e o Oriente Médio. Além disso, caso o Irã concorde com alguma contenção nesta área, os EUA terão de reciprocamente fazer concessões – digamos, um abrandamento de outras sanções. Duvido que Trump ou o Congresso estejam dispostos a isso.

E o mais importante, para obter um acordo com o Irã, Trump tem de trabalhar contra seu impulso de sempre clamar vitória. Talvez isso funcione nas atividades comerciais, onde há uma única transação, embora explique a razão de tão poucas pessoas voltarem a fazer negócios com ele novamente. 

Mas política externa tem a ver com relações de longo prazo e não com transações comerciais individuais. Ambas as partes têm a própria política interna e eleitorados domésticos. Cada uma tem de atestar que teve sucesso. Se Trump tolerar isso, conseguirá exibir alguma coisa no seu mandato: uma real vitória em política externa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

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