EFE/EPA/ABEDIN TAHERKENAREH
EFE/EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

Artigo: Trump desafia Congresso a salvar pacto com Irã

Se o Congresso não se unir, Trump terá o que sempre quis: uma desculpa para se retirar do acordo

Josh Rogin / Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2017 | 04h00

O presidente Donald Trump pede ao Congresso que corrija o acordo nuclear com o Irã, uma estratégia arriscada com elevado grau de dificuldade. A artimanha legislativa, como explicou o secretário de Estado, Rex Tillerson, na quinta-feira à noite, delega a responsabilidade do governo de solucionar as falhas percebidas no pacto. Se o Congresso não se unir para resolver suas demandas, Trump terá o que sempre quis: uma desculpa para se retirar do acordo e encontrar outro a quem culpar.

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Os senadores republicanos Bob Corker, do Tennessee, e Tom Cotton, de Arkansas, divulgaram na sexta-feira um resumo de sua proposta de alteração da Lei de Revisão do Acordo Nuclear do Irã (Inara), que o Congresso aprovou em 2015 para providenciar a supervisão do acordo. 

O plano dos senadores, coordenado com Tillerson durante várias semanas, acrescentaria “gatilhos” à lei que reimplantaria automaticamente as sanções relacionadas à energia nuclear ao Irã, se seu regime chegasse no prazo de um ano a alcançar a capacitação em armas nucleares. Também procuraria abordar as “cláusulas de caducidade”, estendendo unilateralmente diversas restrições sobre o Irã que deveriam expirar nos próximos anos.

O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, disse que apoiará a iniciativa Tillerson-Corker-Cotton para aprovar a nova legislação e ele acredita que Trump tirará os EUA do acordo se o esforço fracassar. Graham disse que a política da questão favorece os republicanos e a estratégia é apresentar a nova legislação como uma solução razoável para remendar um mau negócio. Se o Congresso fizer o que o presidente quer, os EUA poderão apresentar uma frente unida perante os aliados europeus e até mesmo ao Irã.

Os democratas sabem que estão sendo vítimas de uma artimanha. Se eles se opuserem à proposta, arriscam-se a ser alinhados como fracos em relação ao Irã. Se o presidente sair do acordo em razão da passividade do Congresso, eles também poderiam levar a culpa por isso. No entanto, as primeiras indicações são que eles não vão concordar com isso. O Senado precisaria de 60 votos para aprovar nova legislação e alterar o Inara. Como alternativa, o Congresso poderia utilizar as disposições aceleradas no âmbito do Inara para retomar a adoção das sanções nucleares, precisando apenas de 50 votos.

Alguns republicanos do Congresso ressentem-se de Trump, que lhes dá todo o trabalho difícil ao mesmo tempo em que se prepara para atribuir-lhes a culpa se ele fracassar. Eles ressaltam que Trump tem toda a autoridade que precisa para configurar os “gatilhos”, reimplantar as sanções ou fazer qualquer outra coisa que está pedindo ao Congresso para fazer.

Perguntei a Tillerson por que a administração sente a necessidade de colocar o ônus sobre o Congresso, ao invés de simplesmente adotar as mesmas medidas sem o drama e o risco de fracassar. Ele disse querer que o Congresso lhe dê o apoio necessário para persuadir o restante do mundo a resolver o acordo do Irã. “Isso nos ajuda a preparar o terreno para um próximo acordo”, disse Tillerson. O Congresso tem 90 dias para agir, antes do próximo prazo para certificação. Graham disse que 60 dias eram o prazo. De qualquer forma, o Congresso está oficialmente no prazo.

“Estamos pressionando os iranianos ou nós mesmos?” disse Dennis Ross, ex-funcionário da Casa Branca e do Departamento de Estado. Em um ambiente normal, pedir ao Congresso para debater e aprovar uma legislação complicada com consequências internacionais em um prazo apertado não seria aconselhável. Mas este não é um ambiente normal. Trump teve grandes confrontos com os dois altos funcionários que assumiram a liderança sobre isso, Tillerson e Corker, só este mês. 

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Os europeus e os iranianos já advertiram ter pouco interesse em continuar apoiando uma administração que encaram como desestruturada e desrespeitosa com suas opiniões. “Eu não quero sugerir a você que (a aprovação disso) é líquida e certa no Congresso”, disse Tillerson. “Nós sabemos que não é”. / Tradução de Claudia Bozzo

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