Ismael Ferdous/The New York Times
Ismael Ferdous/The New York Times

Artigo: Um ano depois do golpe de Erdogan

Há vários casos mostrando que o governo foi avisado com antecedência sobre essa tentativa de golpe

Ahmet Donmez*, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 19h24

Na noite do dia 15 de julho de 2016, a Turquia foi palco para uma das mais estranhas tentativas de golpe na história do mundo. Pela primeira vez o país passou por uma tentativa de golpe muito absurda, comparando-se com os vários outros sucessivos golpes na sua história recente. Em uma noite de verão, às 22h, por volta de 40 soldados bloquearam uma faixa do trânsito na ponte principal do Bósforo em Istambul. 

O transito corria bem no sentido para a Europa, mas tinha sido paralisado no sentido para a Ásia. Ao mesmo tempo, aviões do Exército voavam bem baixo nos céus em Ancara, cidade capital da Turquia. Logo depois recebemos notícias sobre conflitos armados na sede do quartel e comandantes do nível mais alto foram detidos pelos soldados golpistas. 

Uma hora depois, Binali Yildirim, o primeiro-ministro, apareceu na TV, declarando ao vivo que isso seria uma ação de um grupo de soldados, sem apoio dos generais no topo, por isso não poderia ser chamado de golpe. Logo depois os comandantes confirmaram a declaração do primeiro-ministro e prometeram repelir essa tentativa. O povo estava acompanhando os acontecimentos pela televisão. 

Os golpes de 1960 e de 1980 foram diferentes. O exército tinha detido os políticos, declarado lei marcial e toque de recolher enquanto as pessoas dormiam. Os veículos de comunicação tinham sido controlados e tudo tinha sido planejado em detalhes. Essa vez era diferente.

Erdogan, presidente da Turquia, estava descansando num hotel na cidade de Marmaris quando ele convidou o povo, depois da meia noite, na CNN Turk, fazendo uma conexão ao vivo por meio de um aplicativo, a saírem às ruas contra os golpistas. Ele acusou antecipadamente o clérigo Fethullah Gulen. Gulen era seu arqui-inimigo e Erdogan estava perseguindo seus seguidores nos últimos três anos. 

Após a chamada de Erdogan, milhares foram para os pontos onde os golpistas tinham se estabelecido, como o aeroporto de Istambul, a ponte do Bósforo, o quartel general, etc. Nessa noite morreram 249 pessoas, por tiros vindo dos soldados ou grupos paramilitares apoiados pelo governo. 

Era uma noite em que vários instrumentos psicológicos de guerra foram utilizados para forçar o povo a sair às ruas. Por exemplo, todas as mesquitas realizaram chamadas de maneira organizada, convidando o povo “à defesa da religião e do Estado”. 

Na madrugada, a situação foi totalmente controlada, os golpistas foram detidos e surgiram várias perguntas. Erdogan disse que isso foi um “presente de Deus” e expressou a felicidade de ter novas oportunidades para realizar seus sonhos. No dia 20 de julho, declarou estado de emergência no país, desqualificou o Parlamento e começou a governar o país por meio de decretos emitidos conforme suas necessidades. 

Aproveitando o ambiente de medo e apoio ao seu governo, ele escolheu tratar o assunto como um “crime coletivo” e praticar “castigo coletivo”. Cerca de 120 mil foram detidos e 55 mil foram presos, sendo 17 mil mulheres. Sem ter alguma ligação com golpistas, muitos acadêmicos, jornalistas, empresários, juízes, promotores, advogados, médicos, professores, estudantes e até donas de casa foram detidos em massa. 

Até hoje, quase 140 mil funcionários públicos foram expurgados incluindo 5 mil juízes, 8 mil acadêmicos e um terço dos soldados e policiais. Mais de 2 mil escolas, universidades, associações privadas foram fechadas. 149 empresas de comunicação foram confiscadas e 234 jornalistas foram presos. Selahattin Demirtas, líder do partido curdo, foi preso junto a outros deputados do seu partido. 

Outros partidos de oposição adotaram um discurso moderado ou ficaram aliados ao governo para evitar essa onda de perseguição. Assim, o país ficou sob domínio de apenas um partido e uma pessoa. 

Erdogan decidiu fazer um referendo nessa atmosfera para alcançar o maior objetivo na sua carreira política: mudar o sistema parlamentarista e se tornar presidente, ou seja o único poder executivo. Com uma margem apertada e várias suspeitas de fraude, ele venceu e se tornou presidente. Antes, ele não tinha apoio suficiente para fazer isso. Por isso, a tentativa fracassada foi um “presente de Deus” para ele. 

Dentro da Turquia, Erdogan fez o povo acreditar em sua teoria, e conseguiu receber apoio do maioria para executar seus projetos políticos. Fora da Turquia, ninguém comprou essa ideia e trataram o assunto com preocupação e suspeita. Vários relatórios apontaram que Erdogan já sabia que havia um movimento dentro do Exército e deixou o golpe acontecer de maneira controlada para aproveitar seus resultados. Há vários casos mostrando que o governo foi avisado com antecedência sobre essa tentativa. Se ele não deixasse isso acontecer, 249 pessoas não morreriam. 

Dois personagens principais da noite do golpe são Hakan Fidan, chefe da inteligência, e Hulusi Akar, chefe do Exército. Ambos continuam trabalhando em seus cargos e Erdogan não lhes permitiu dar um depoimento na comissão formada para pesquisar a tentativa de golpe. 

Durante um ano, várias perguntas foram respondidas e chegamos a saber que Erdogan tinha se preparado melhor do que os golpistas. Por exemplo, hoje sabemos que 4 aviões em 4 aeroportos diferentes esperavam para transportar Erdogan, como parte do plano para fugir dos golpistas. 

Muitos testemunhos da noite relataram que houve tiros vindo de carros pretos e civis. Não foi feito autópsia das pessoas que morreram naquela noite. Para relembrar, Erdogan ficou mais poderoso e um homem incontestável, colocando seu trono em cima dos civis que morreram na tentativa de golpe. 

*Jornalista no exílio

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