Tom Brenner/The New York Times
Tom Brenner/The New York Times

Artigo: Um presidente despreparado para o cargo

Trump demonstra isso diariamente em seus discursos e tiradas no Twitter

Max Boot, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 05h00

Se você levar a sério as revelações no livro Fear (Medo), de Bob Woodward – e como não levar, se ele há quase meio século tem dado furos sobre a elite de Washington? –, então é hora de o presidente Donald Trump ser removido do cargo por força da 25.ª Emenda, pois ele é claramente “incapaz de desempenhar o cargo”.

Mas isso jamais acontecerá, porque o gabinete está repleto de aduladores que competem uns com os outros para prestar a adulação mais elogiosa ao seu líder supremo. Mas em relação ao mérito, isso deveria ocorrer.

 Claro, nem são necessárias as revelações de Woodward para demonstrar a falta de capacidade de Trump para exercer o cargo. O presidente demonstra isso diariamente em seus discursos e tiradas no Twitter. No dia anterior, ele havia exigido que o Departamento de Justiça abandonasse as investigações criminais contra seus partidários, pois isso poderia custar cadeiras aos republicanos no Congresso e sugeriu que a NBC perca sua licença de transmissão porque ele se opõe às críticas que recebe dela.

Um funcionário do Departamento de Justiça disse ao site Axios: “Isso mostra como a presidência acha que o Departamento de Justiça deveria ser usado. Como arma contra inimigos e uma ferramenta para ganhar eleições”. Em um mundo normal – onde o Congresso não é controlado por cegos partidários republicanos – o fato de que Trump continue a fazer exigências tão em desacordo com o estado de direito seria motivo para impeachment. 

Mas, mesmo que Woodward não inove em termos conceituais, ele fornece novas evidências condenatórias para reforçar o que já sabemos – que depois de mais de 18 meses no cargo, Trump continua desqualificado como nunca para ser presidente. Até os republicanos sabem disso. Eles apenas escolheram negar, porque seria perigoso demais para seu bem-estar político admitir a realidade.

Alguns rumores que Woodward relata há muito circulam em Washington, mas ele parece ter identificado a evidência de que Trump precisou ser convencido a desistir de retirar as tropas americanas da Coreia do Sul e do Afeganistão; de planejar um ataque preventivo à Coreia do Norte; de assassinar Bashar Assad e de rasgar o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte e o Acordo de Livre-Comércio com a Coreia do Sul. 

Woodward revela que o chefe de gabinete, John Kelly, teria dito de Trump: “Ele é um idiota. É inútil tentar convencê-lo de qualquer coisa. Ele saiu dos trilhos. Estamos em Crazytown (Loucolândia).” As revelações serão recebidas entre os republicanos não como um sinal da inaptidão de Trump, mas como evidência de uma conspiração da “mídia das notícias falsas” contra seu herói. 

Kelly está certo. Estamos em Crazytown. Mas Trump está longe de ser a pessoa mais louca da cidade. As pessoas realmente loucas são os republicanos, que acham que devemos continuar confiando num homem despreparado para ser presidente. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É COLUNISTA

 

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