Artigo: Uma detenção insana no Aeroporto de Heathrow

A burocracia britânica teme que o véu de mistério que envolve suas atividades desapareça e os cidadãos comecem a exigir mudanças

Stephen M. Walt *, Foreign Policy - O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2013 | 02h03

O que as autoridades britânicas estavam pensando quando detiveram David Miranda, parceiro do jornalista Glenn Greenwald do Guardian, no Aeroporto de Heathrow? Eles o mantiveram sob custódia por nove horas e confiscaram uma montoeira de equipamentos de computação, pen drives e coisas assim. Tudo sob os auspícios da Lei Antiterrorismo de 2000, da Grã-Bretanha, que autoriza detenções de pessoas suspeitas "de envolvimento na preparação ou na instigação de atos terroristas".

Como era de se esperar, esse ato tolo, porém arrepiante, de intimidação oficial está sendo justamente condenado pelo próprio Greenwald e por comentaristas como Andrew Sullivan. No entanto, estou intrigado com a questão da motivação: o que levou o governo britânico a fazer isso? Eu não sei, mas eis algumas possibilidades.

Primeiro, é possível que isso tenha sido tão somente um ato de burocratas de baixo escalão do contraterrorismo operando sem aprovação oficial. Essa explicação parece muito improvável, porém. Por que funcionários de baixo escalão escolheriam Miranda (que estava apenas em trânsito por Heathrow a caminho do Rio) e o reteriam por nove horas, interrogando-o o tempo todo sobre a reportagem de seu parceiro sobre a NSA?

Quanto a isso, como foi que ele entrou numa lista de vigilância que permitiria às autoridades britânicas pinçá-lo das milhares de pessoas que circulam por aquele aeroporto todos os dias? Portanto, creio que podemos descartar a pura política burocrática ou as trapalhadas de escalões inferiores como explicação.

Segundo, talvez as autoridades britânicas estivessem genuinamente preocupadas de que Miranda (e, por associação, Greenwald e Laura Poitras) pudesse estar ativamente engajado em terrorismo. Mas isso é ridículo. Sejam quais forem as atividades políticas e jornalísticas de Greenwald, não há a menor base para suspeitar que ele ou seus associados tenham apoiado o terrorismo de algum modo. Se as autoridades britânicas realmente tinham essas suspeitas, deveríamos nos preocupar com a qualidade do pensamento dentro do governo.

Terceiro, talvez elas suspeitassem que Mirada estivesse transportando mais informações fornecidas por Edward Snowden, coisas que ainda não teriam sido divulgadas. Nessa versão, elas o detiveram e confiscaram os pen drives para impedir outra rodada de revelações saborosas no Guardian. Mas esse relato não faz sentido também, porque Greenwald e Poitras são espertos para terem feito cópias do material. Se era esse o objetivo, então detê-lo não adiantou nada.

Quarto, talvez isso fosse visto como um ato de intimidação: o governo britânico estaria dizendo a Greenwald que pode perseguir seu parceiro se ele (Greenwald) continuar divulgando materiais que são embaraçosos para os EUA, aliados da Grã-Bretanha.

Isso enviaria uma mensagem clara a Greenwald de que ele está sendo vigiado e os que estão próximos dele também. O próprio Greenwald acredita que foi essa a motivação para a ação do governo britânico. Se é assim, porém, então também foi uma ação absolutamente capenga.

Não é preciso um QI de três dígitos para concluir que Greenwald não será intimidado assim. Ao contrário, toda sua carreira como blogueiro, escritor e jornalista foi movida pelo desejo de expor abusos de poder. Fazer dele o objeto pessoal desse tipo de abuso dificilmente vai fazê-lo parar de escrever e voltar a ser um advogado corporativo. Assim, se foi esse o objetivo, alguém na operação antiterror britânica não estava prestando atenção ou não é muito brilhante - ou ambos.

Minha opinião é que esse foi um ato de vingança burocrática mesquinha. Foi o berro ultrajado de um aparelho de segurança acostumado a fazer as coisas a sua maneira e, em geral, desdenhoso de supervisão. Tanto nos EUA como na Grã-Bretanha as vastas burocracias nacionais de segurança e inteligência estão acostumadas a agir com enorme alcance e autonomia. Elas decidem o que é secreto, quando é certo vazar algo para repórteres e quando é preferível perseguir alguém por vazar ou reportar.

A maioria acredita que isso é para bem do país e tem o benefício de isolá-los de críticas incômodas. As pessoas ficam furiosas com Snowden, Greenwald, Poitras e Assange porque eles não rezam pela mesma cartilha. Eles divulgaram materiais que esvaziaram vários mitos sobre o que a burocracia oficial está realmente fazendo. E a burocracia oficial está temerosa de que, se o véu de mistério se esgarçar ainda mais, os cidadãos ficarão perturbados com o que ficarem sabendo e podem exigir que as coisas mudem.

Aliás, as revelações de Snowden sobre a NSA já começaram a provocar um movimento por reforma. E não seria nada surpreendente se algumas pessoas no vasto mundo da inteligência e do contraterrorismo decidissem que é hora da desforra.

*Stephen M. Walt é professor de Relações Internacionais da Universidade de Harvard.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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