AFP PHOTO / TIMOTHY A. CLARY
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Artigo: Uma estranha visão de mundo

Quase todos os pilares da presidência Trump podem ser rastreados até uma das suas ideias básicas: os EUA estão sendo enganados

Amber Phillips / The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2017 | 05h00

Quase todos os pilares da presidência de Donald Trump podem ser rastreados até uma das suas ideias básicas: os EUA estão sendo enganados. O presidente insinuou ou declarou tais coisas em quase todos os discursos internacionais que fez desde a posse. Ontem, Trump chamou o norte-coreano Kim Jong-un de “homem-foguete” e ameaçou “destruir totalmente a Coreia do Norte”. A seguir, os principais tópicos da retórica de Trump.

Em rota de campanha, associou quase todos os seus principais problemas à doutrina "América em primeiro lugar", que se baseia na ideia de que os Estados Unidos enfrentam dificuldades nas mãos do restante do mundo.

-Sobre imigrantes que atravessam a fronteira entre os EUA e México: "Quando o México manda suas pessoas, não está enviando o que há de melhor. Não está mandando você. Está mandando pessoas com muitos problemas e trazendo esses problemas para nós. Está mandando drogas. Está trazendo crime. São estupradores. E alguns, imagino, são boas pessoas”. (Março de 2016, entrevista ao NYT, a Maggie Haberman e David Sanger).

-Sobre empregos nos EUA: "Não há bons empregos, são maus trabalhos. Estamos perdendo, vocês sabem. Quando se vê uma empresa como a Carrier mudar para o México, são bons trabalhos que se perdem. Estamos perdendo os bons empregos”. (Entrevista em março de 2016 a Maggie Haberman e David Sanger, do NYT)

-Sobre comércio: “Nós não colocamos a América em primeiro lugar. Temos esses horríveis, horríveis negociadores. Na verdade, acho que eles não são tão estúpidos quanto as pessoas pensam. Acredito que realmente querem ajudar todo mundo. Querem ajudar todos, menos nosso país. Teremos uma política de América em primeiro Lugar. Tornem os Estados Unidos poderosos de novo”. (Discurso de junho de 2016 em Redding, Califórnia).

-Sobre os políticos: “Vamos colocar os Estados Unidos em primeiro lugar, e vamos tornar a América poderosa de novo. Esta eleição vai decidir se seremos governados pelo povo ou pelos políticos”. (Discurso de março de 2016 à Comissão de Assuntos Públicos Americanos e Israelenses).

- Sobre o envolvimento no exterior: “Temos sido desrespeitados, ridicularizados e explorados há muitos anos por pessoas mais inteligentes, mais astutas, mais rigorosas. Fomos o grande intimidador, mas não fomos liderados com inteligência. E fomos considerados o grande valentão que era - o grande idiota estúpido e fomos sistematicamente explorados por todos”. (Março de 2016, entrevista ao New York Times).

Equipes de verificação de fatos (fact checking) e importantes economistas discordam de muitas das estatísticas que Trump usou para moldar essa sua visão do mundo. Déficits comerciais não são a melhor forma de medir o quão justo é o comércio. Os integrantes da Otan não estão pagando pouco em comparação com os Estados Unidos. Trump tornou ilegítimos os dados oficiais sobre emprego dos EUA considerando-os "falsos” no esforço de comprovar sua tese de que a economia dos EUA passa por um tumulto.

Mas verificar os fatos sobre o presidente traz outra questão que temos de explorar para compreender porque a marca isolacionista de “América em Primeiro Lugar” tornou-se o fundamento da presidência de Trump: Por que ele venderia uma visão de mundo que os fatos não sustentam? Em especial quando o restante da ordem internacional vai na direção oposta, atuando sob a crença compartilhada de que abertura de fronteiras e cooperação é a melhor maneira de proteger os próprios interesses de cada país.

Trump gabou-se ante o New York Times na entrevista de março de 2016 quando disse pensar que os Estados Unidos estavam no caminho errado desde pelo menos da época da 2ª Guerra. Talvez essa sempre tenha sido sua visão de mundo, e ele não se preocupou em atualizá-la ante às realidades da globalização. Mas a mensagem de que os Estados Unidos não estão dando certo também é estranha, pois vem de um empresário de sucesso que fez bilhões neste país e outros.

É, porém, uma visão de mundo conveniente se você quer ganhar uma campanha presidencial contra candidatos mais experientes. Se você pode convencer um número suficiente de eleitores de que os Estados Unidos estiveram no caminho errado enquanto políticos estiveram no comando, você tem chance de vencer. E é exatamente isso que Trump fez: culpou políticos por deixarem o resto do mundo ultrapassar os Estados Unidos, prometeu reverter o curso e conquistou a presidência contra todas as probabilidades.

Por essas razões que é importante observar que a doutrina de “América em primeiro lugar” de Trump não pode ser facilmente separada de outro tema que definiu sua campanha: que o mundo é um lugar escuro e nenhum país enfrenta mais dificuldades agora que os Estados Unidos.

Em seu discurso de posse, ele descreveu a nação que estava prestes a herdar como "carnificina americana". "Mães e crianças presas na pobreza de nossas cidades do interior; fábricas enferrujadas espalhadas como lápides na paisagem do nosso país; um sistema educacional cheio de dinheiro, mas que deixa nossos jovens e belos estudantes privados de todo conhecimento; e o crime e as gangues e as drogas que roubaram tantas vidas e furtaram nosso país com tanto potencial não concretizado”.

Os políticos americanos deixaram o mundo aproveitar-se dos Estados Unidos, que é agora literalmente uma carnificina. É sobre essas duas crenças fundamentais que Trump montou praticamente cada um dos pilares de sua campanha e sua presidência. Muito disso não se comporta de acordo com os fatos, mas com certeza é uma mensagem eficaz para conquistar a presidência. / Tradução de Claudia Bozzo 

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