ARTIGO: Votei em Trump e não me arrependo

ARTIGO: Votei em Trump e não me arrependo

Eleitores de Trump dizem estar torcendo pelo melhor. Mike Staudt, agricultor aposentado de Marble Rock, votou em Obama em 2012, mas descreveu a Lei de Atendimento Acessível como forma de socialismo

Trip Gabriel / The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2017 | 16h17

MONTICELLO, IOWA - A reunião de moradores interessados começava a se aprofundar nos planos do presidente eleito Donald Trump para subverter o governo.

“Ele está obtendo reações; as coisas estão acontecendo”, disse o aposentado Jerry Retzlaff. “Bastou uma publicação sua no Twitter para fazer o congresso mudar de ideia.”

“Não é segredo que a imprensa não gosta dele, bem como boa parte de nossos líderes”, acrescentou. “E isso é porque ele planeja fazer uma série de mudanças.”

Os oito homens reunidos em torno da mesa retangular, tomando café nas canecas doadas pelos fregueses, se encontram diariamente para as torradas, ovos e bacon servidos no restaurante Darrell’s, enquanto debatem soluções para os problemas do mundo.

Washington pode estar envolvida numa sequência de controvérsias relacionadas a Trump antes mesmo da posse do presidente: relatos não confirmados de constrangedoras informações a respeito dele que estariam em poder dos russos, possíveis conflitos éticos, doadores e bilionários que formam seu gabinete, sua reação aos relatos das agências de espionagem indicando interferência de hackers russos na eleição. Mas, em Iowa, aqueles que votaram em Trump não parecem muito preocupados.

Monticello, no leste rural do estado, fica próxima do epicentro do terremoto político que levou Trump à presidência. Iowa proporcionou a Trump seu maior triunfo num dos estados em disputa: uma reviravolta de 15 pontos porcentuais em relação à vitória obtida com facilidade pelo presidente Obama em 2012.

Al Ameling, de 58 anos, analista técnico , representa a profunda mudança demográfica observada entre os eleitores brancos da zona rural na parte norte do Meio-Oeste que ajudou a produzir a surpreendente eleição de Trump. Ameling votou em Obama em 2008, não compareceu às urnas em 2012 e defendeu Trump entusiasticamente. Nada que ele tenha ouvido desde o dia da eleição abalou sua convicção.

“Do jeito que as coisas são hoje em dia, tudo me parece mentira, a não ser que sejam apresentadas provas cabais”, disse. Ele acrescentou que estava mais preocupado com a possibilidade de funcionários do próprio governo terem vazado o material para a imprensa. “Não sei se o material era confidencial, mas, caso afirmativo, o responsável pelo vazamento deve ser preso”, disse. “Precisamos da volta da lei e da ordem neste país.”

O condado de Jones, que inclui Monticello, é onde nasceu o pintor Grant Wood, e onde os mais velhos ainda usam sobretudos de risca de giz no estilo gótico americano. Trump foi eleito ali com margem de 20 pontos porcentuais; quatro anos antes, Obama obteve no mesmo lugar uma vitória fácil.

No Darrell’s, duas mesas reúnem os debates entre os moradores – uma delas favorecendo os democratas, e a outra, os republicanos. Entre os frequentadores estão um oftalmologista, agricultores e ex-funcionários de uma empresa de serviços públicos. Mel Manternach, agricultor aposentado, disse que muitos agricultores que tinham votado em Obama optaram agora por Trump, o que o deixou surpreso. “Trump foi contra o TTP, que teria beneficiado a exportação de commodities agrícolas”, disse, referindo-se ao acordo comercial de Parceria Trans-Pacífico. “Eles votaram contra os próprios interesses.”

Os moradores de Iowa costumam levar suas vidas políticas longe da chapa quente das mídias sociais. Não acompanham hora a hora os avanços da transição presidencial.

Muitos se mostravam confusos em relação aos detalhes da proposta dos congressistas republicanos que previa a substituição do Medicare. Tais eleitores temiam a explosão de um surto de ataques terroristas muçulmanos como o visto na Europa, que poderia chegar aos EUA e até às suas comunidades. Em sua grande maioria, os defensores de Trump não querem que seu dinheiro, conquistado à custa de muito suor, seja redistribuído para pessoas que não o mereceriam.

Um ano atrás, um funcionário da campanha de Hillary batia de porta em porta em Newton, pequena cidade na região central de Iowa que enfrenta dificuldades desde o fechamento de uma fábrica de máquinas de lavar. Jeff McKibben, um dos funcionários demitidos, teve que aceitar um salário menor para trabalhar numa prisão. Antes um “democrata convicto”, como o próprio se descreveu, ele se recusou a declarar apoio a Hillary quando foi visitado.

Contatado recentemente, ele não quis dizer em quem tinha votado, embora o condado de Jasper, que inclui Newton, foi um dos mais de 30 condados de Iowa que elegeram Trump este ano depois de terem elegido Obama em 2012. “Talvez seja hora de fazer mudanças”, reconheceu McKibben. “Vi alguns vizinhos com fortes laços nos sindicatos colocando cartazes de Trump no jardim.”

O quadro era o mesmo no condado de Des Moines, sudeste de Iowa. A presidente local do Partido Democrata, Sandy Dockendorff, percebeu que havia problemas quando viu um cartaz de Trump no jardim de um eletricista que sempre votou nos democratas.

“Quando eu o procurei”, explicou Sandy a um grupo de ativistas desmoralizados numa reunião do sindicato dos metalúrgicos, “ele disse ‘vocês deixaram de falar minha língua, não estão preocupados com os empregos’”.

Sandy disse que os habitantes da zona rural de Iowa criticavam os democratas por sua oposição a projetos que criariam empregos, como os oleodutos, ao mesmo tempo em que sua campanha se concentrava principalmente nos defeitos de Trump. “Ficamos caçoando de Trump, dizendo que ele jamais ganharia, que seria um presidente horrível”, comentou ela. Mas “Trump era o único falando em empregos”, acrescentou Sandy.

Num restaurante do condado de Des Moines, na pequena cidade de Burlington, nas margens do Rio Mississippi, a garçonete Melissa Ell disse ter votado em Obama em 2012. Mas, na eleição mais recente, preferiu ficar em casa. “Sinceramente, não quis votar em nenhum dos dois”, disse ela.

Aos 46 anos, Melissa ganha um salário de US$ 6,50 por hora no Jerry’s Main Lunch, restaurante de 14 lugares. Enquanto atendia uma mesa, ela comentava com Jackie Furman a respeito daqueles que se aproveitam da ajuda do governo. “Acho que os beneficiados pelos programas de assistência deveriam ser submetidos a exames de drogas”, disse Melissa.

“O sistema de bem estar social precisa ser reorganizados”, concordou Jackie, gerente de padaria aposentada, queixando-se da “gente de Chicago” que se mudava para Burlington para receber benefícios melhores, trazendo consigo a criminalidade. Jackie, de 70 anos, disse: “Tenho vergonha de ter votado em Obama” em 2008. “Acredito que ele se elegeu com o objetivo de arruinar o país.”

Há opiniões contrárias. Em Washington Street, Burlington, eu esperava que o Posto 10102 dos Veterans of Foreign Wars (Veteranos de Guerras no Estrangeiro) fosse um baluarte de apoio ao presidente eleito, que prometeu repetidas vezes “tomar conta” dos veteranos.

Mas o ceticismo é mais profundo. “Não estou pensando em mim”, disse Dan Meade, veterano da marinha. “O que vai acontecer com nossos filhos, nossos netos? Acho que o sujeito é maluco.”

Com outros três, ele bebia cerveja artesanal em copos de plástico servidos a US$ 1,50. Sarcásticos, repetiam frases ditas por Trump na campanha. “Ele sabe mais que os generais; não gosta de prisioneiros de guerra”, disse Dan Warren, veterano do Exército.

“Durante a campanha, Trump disse que administraria os EUA como administra suas empresas”, opinou Frank Boyle, que serviu na marinha. “Vamos imitar a falência de qual de suas muitas empresas quebradas?”

Ainda assim, os eleitores de Trump dizem estar torcendo pelo melhor. Mike Staudt, agricultor aposentado de Marble Rock, votou em Obama em 2012, mas descreveu a Lei de Atendimento Acessível como forma de socialismo. Disse não ver problema num candidato que se apresentou como voz dos trabalhadores e agora monta um gabinete formado por ultramilionários. “Sei que esses sujeitos são muito ricos”, disse. “Talvez eles tenham feito algumas jogadas suspeitas, mas todos tiveram de ser muito espertos para se tornarem bilionários. Se substituírem os interesses próprios pelos interesses do país, eles podem nos levar adiante. É isso que me anima."/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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