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Artigo: Watergate já não parece tão grande

Presidente deve ao povo americano explicações sobre as relações entre integrantes de sua equipe de campanha e agente do governo russo

Nicholas Kristof* / The New York Times , O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2017 | 05h00

À época do escândalo do Watergate, até o hoje o maior escândalo político da história americana, uma pergunta crucial foi feita pelo senador Howard Baker: “O que o presidente sabia e quando soube?” A crise no governo atual não é sobre Mike Flynn, mas sobre o presidente que o nomeou, que inicialmente pensou em colocá-lo como seu vice. A mais recente revelação de contatos frequentes entre a equipe de Donald Trump e a inteligência russa deve servir de alerta para republicanos e democratas.

Em uma entrevista na Fox News no dia 15 de janeiro, o vice-presidente Mike Pence foi questionado sobre se houve algum contato entre membros da campanha de Trump e o Kremlin, e respondeu: “Claro que não. Por que ocorreriam tais contatos?” Uma boa pergunta, senhor vice-presidente.

Há muita coisa que desconhecemos, mas a interferência russa na eleição é potencialmente um escândalo maior que o do Watergate. O Watergate não alterou o resultado de uma eleição – o presidente Richard Nixon havia vencido a eleição em 1972 – ao passo que a eleição de 2016 foi tão apertada que a interferência russa pode ter sido crucial. Não sabemos se os russos tiveram ajuda doméstica no seu trabalho para interferir na eleição, mas existem alguns pontos que devem ser ligados.

Primeiro, a comunidade de inteligência americana concorda que o Kremlin interferiu durante a campanha para ajudar Trump. Não é a conclusão de uma agência, mas trata-se de “um forte consenso” entre CIA, FBI e o diretor da inteligência nacional.

Segundo, o dossiê preparado por um ex-agente da inteligência britânica especializado na Rússia descreve um conluio entre a campanha de Trump e os russos. Conforme a CNN, a inteligência americana tem interceptações de comunicações que corroboram elementos do dossiê e a recente revelação de contatos repetidos e constantes entre o Kremlin e a campanha de Trump dão mais peso às informações contidas no documento.

Terceiro, o presidente Trump tem se mostrado misteriosamente muito simpático à Rússia e ao presidente Putin. Como disse Jeffrey H. Smith, ex-conselheiro da CIA, “a questão mais importante é saber por que Trump e o pessoal que o cerca adotaram uma posição tão radicalmente diferente da que tem sido contemplada há décadas com relação à Rússia”.

Em quarto lugar, Flynn, antes de tomar posse do cargo, manteve conversas telefônicas sobre as sanções impostas pelo governo Obama contra a Rússia com o embaixador russo. Flynn renunciou ao posto, mas estava inserido numa cadeia de comando; duvido que os telefonemas tenham sido feitos apenas por decisão sua. 

Retornamos então à pergunta: o que o presidente sabia e quando soube? A Casa Branca não respondeu às minhas indagações e Trump atacou a “falsa mídia”. Ele me lembra Nixon, que em 1974 disse que o Watergate “teria sido um simples incidente” se não fosse pelos jornalistas que odiavam sua coragem. Logo depois, ele renunciou.

Os defensores de Trump afirmam que o escândalo no caso são os vazamentos que desgastam a imagem do governo. É assombroso ver um presidente que comemora os acessos ilegais a e-mails de campanha da sua rival de repente mostrar-se alarmado com vazamentos. Claro que vazamentos são motivo de preocupação, mas perdem importância em relação a questões de maior envergadura envolvendo a integridade de líderes e eleições. 

“Estou chocado como as pessoas parecem se preocupar muito pouco com fato de os russos interferirem na eleição presidencial de modo claro e inequívoco”, disse-me Michael McFaul, ex-embaixador dos EUA na Rússia. “Existe algo mais importante do que isso?” E eu acrescento que somente uma coisa seria mais importante: se os russos tiveram ajuda dentro dos Estados Unidos.

Há muita coisa que desconhecemos. Mas precisamos urgentemente de uma investigação bipartidária e o ideal seria um painel independente inspirado na comissão de investigação dos atentados do 11 de Setembro. E esse painel terá de responder a essa pergunta crucial: “o que o presidente sabia e quando soube?”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É COLUNISTA

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