Artista controlado por Pequim expõe rotina na internet

Um ano após ser preso, Ai Weiwei instala câmeras em casa para protestar contra monitoramento chinês

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2012 | 03h03

Vigiado por 15 câmeras colocadas na rua de sua casa, o artista plástico Ai Weiwei decidiu escancarar sua intimidade e revelar na internet o que ocorre do lado de dentro, com a instalação de webcams em sua mesa de trabalho, em seu quarto e no jardim. O ato marca o aniversário de um ano de sua detenção.

"É um presente para o público", disse Ai Weiwei ao Estado, na frente do computador monitorado por duas câmeras, que operam 24 horas por dia. "Quando fui preso, ninguém sabia onde eu estava. Minha família, meus amigos, meus colegas, ninguém tinha nenhuma informação. Por isso eu quis que as pessoas me vissem neste momento especial. Elas podem me ver até quando estou dormindo e constatar que não estou em perigo."

O gesto subverte o controle exercido pelo governo e ironiza o monitoramento constante a que está sujeito, tanto pelas câmeras na frente da sua porta quanto pela escuta em seus telefones.

Mais célebre artista chinês contemporâneo, Ai Weiwei foi detido em 3 de abril de 2011 em meio à onda repressiva que tomou conta da China depois de uma convocação anônima para protestos semelhantes aos que derrubaram ditaduras no mundo árabe. Ele não tinha nenhuma relação com a frustrada "Revolução do Jasmim", mas era - e é - um crítico feroz do governo e do Partido Comunista.

A ideia de instalar as webcams surgiu há duas semanas e Ai Weiwei disse que pretende mantê-las enquanto puder. As transmissões começaram na noite de anteontem no site www.weiweicam.com e, de madrugada, era possível ver o artista dormindo. Por problemas técnicos, o movimento era extremamente lento, e as imagens apareciam congeladas.

Ai Weiwei foi libertado no dia 21 de junho, mas teve seu passaporte confiscado e está sujeito a uma série de restrições. "Eu não posso sair de Pequim, não posso acessar a internet, não posso falar com jornalistas, não posso escrever artigos... Há muitos 'não posso'", observou. "Eles não dão explicações, apenas ordens, e a ideia é muito simples: não critique nada e não dê opiniões políticas."

O artista desafia diariamente os limites das restrições, escrevendo em seu Twitter, onde tem 136 mil seguidores, e falando com jornalistas. Ai Weiwei disse não saber por quanto tempo as proibições serão mantidas. "Pode durar para sempre ou amanhã eles podem dizer que está tudo bem. Ninguém sabe", afirmou. "Não há comunicação, apenas ordens."

O artista lembrou que seu pai, o poeta modernista Ai Qing, foi "exilado" dentro do próprio país durante 20 anos. "De repente, um dia, eles disseram que estava tudo bem", observou. Ai Qing foi vítima da campanha "anticonservadora" desencadeada por Mao Tsé-tung em 1957. Enviado para a zona rural, foi proibido de publicar seus trabalhos e reabilitado em 1979.

Segundo o artista, o isolamento e a incerteza são as piores memórias dos 81 dias em que permaneceu detido. "Você está separado, dividido do restante da humanidade, não pode compartilhar nada com ninguém e perde o sentido da realidade", recordou. "A cada dia eles vinham me aterrorizar, dizendo que aquilo poderia durar 10, 15 anos."

Apesar da experiência e das restrições a que está sujeito, Ai Weiwei afirmou não sentir amargura. Mesmo que pudesse, disse que não deixaria o país para viver no exterior. "Eu sou chinês. Por que eu deveria sair da China?"

Oficialmente, o artista não está sendo julgado por seu ativismo político. O governo o acusou de sonegação de impostos e, em 1.º de novembro, exigiu o pagamento de uma multa no valor de US$ 2,4 milhões. Naquela época, Ai Weiwei também subverteu a intenção oficial. No período de 15 dias, arrecadou US$ 1,4 milhão em doações de 30 mil pessoas, em um claro gesto de contestação política. O dinheiro foi usado como garantia para que ele pudesse recorrer da multa, mas há poucas chances de vitória. Na semana passada, o governo rejeitou o apelo do artista para que o processo de sonegação tivesse um julgamento público.

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