As 3 razões para não suspender o auxílio aos generais do Cairo

O corte significativo da ajuda americana aos militares egípcios, anunciado ontem pela Casa Branca, pode ser uma necessidade moral. Em vez de gás lacrimogêneo, os generais do Cairo têm preferido usar munição real contra manifestantes. Em julho, deram um golpe contra um governo democraticamente eleito – embora governasse de maneira antidemocrática e tivesse se tornado o alvo da revolta popular.

ANÁLISE: Jeffrey Goldberg / BLOOMBERG,

09 de outubro de 2013 | 22h45

No entanto, a redução da ajuda levanta difíceis questões para os aliados americanos da região, para o processo de paz e para a segurança nacional dos EUA. Também suscita dúvidas quanto à utilidade de meias medidas: cortar parte da ajuda é, sobretudo, um gesto de desaprovação, e não uma profunda mudança destinada a conduzir o Egito por um caminho diferente.

Os aliados dos EUA na região – principalmente Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Bahrein – enfrentam os mesmos adversários da liderança egípcia: o radicalismo xiita (sob a forma do regime iraniano e do Hezbollah); a Irmandade Muçulmana, que os militares egípcios decidiram banir com brutalidade (é bom lembrar, com a ajuda de milhões de egípcios contrários à organização); e o extremismo sunita (sob a forma da Al-Qaeda e de grupos que adotam uma linha semelhante, inclusive os que atualmente aterrorizam a Península do Sinai). Esses aliados já não confiam na amizade do presidente Barack Obama. E eles – particularmente os árabes, mas um pouco menos os israelenses – temem ser relegados ao segundo plano em favor de uma visão mais isolacionista em relação ao mundo ou, pior ainda, da aproximação americana ao Irã, na qual não confiam absolutamente.

Outra causa de preocupação são as consequências que essa medida poderia ter para as conversações de paz entre Israel e os palestinos. O Egito pressiona energicamente o Hamas na Faixa de Gaza, cortando o suprimento de armas e fechando os túneis usados para contrabandear mercadorias. O Hamas enfraquecido interessa particularmente aos EUA, a Israel e, o que é mais importante, à Autoridade Palestina.

Não faz muito sentido do ponto de vista de Israel – ou da perspectiva do presidente palestino Mahmoud Abbas – punir os militares egípcios enquanto ele prejudicam o Hamas. Por um lado, a facção radical está trabalhando razoavelmente, suprimindo os elementos perigosos que pretendem deflagrar um novo conflito com Israel. Por outro, o Hamas é sempre o Hamas, sempre contrário à existência de Israel e certamente ao avanço da solução dos dois Estados (por mais sonhadora que a ideia possa parecer neste momento).

E há também a Península do Sinai. O governo Obama não pretende cortar a ajuda ao Egito para combater o terrorismo, recurso que está sendo usado contra grupos da Al-Qaeda no Sinai. Mas provocar a inimizade dos generais que agora agem no interesse da segurança nacional dos EUA poderia ser interpretado como uma política míope.

Impedir que a região mergulhe no caos é uma tarefa importante na luta contra o extremismo islâmico. Entretanto, interessa ao Egito conter o Hamas e combater o terror islâmico, quer os EUA contribuam com uma ajuda militar direta quer não. E o governo Obama sabe disso.

Há onze anos, num famoso discurso em que se opunha à Guerra do Iraque, Obama disse: "Vamos lutar para garantir que os nossos chamados "aliados" no Oriente Médio, sauditas e egípcios, parem de oprimir seu povo, de eliminar os dissidentes, de tolerar a corrupção e a desigualdade, de administrar desastradamente suas economias, permitindo que sua juventude cresça sem uma formação adequada e possa ser rapidamente arregimentada por terroristas".

Essa é a filosofia de Obama sobre o Oriente Médio. Além de todos os outros perigos, o corte da ajuda ao Egito assinala que o atual governo americano pretende agir de maneira agressiva contra os autocratas árabes, oferecendo aos islamistas esperança num momento em que eles estão desconcertados. Podemos prever, sem riscos, que nenhum dos aliados dos EUA ficará particularmente satisfeito com a decisão de ontem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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